Dor e consciência

«Quase uma hora depois, o gladiador recobrou os sentidos. A dor era como uma estrada, ao longo da qual caminhava a consciência.»

Spartacus, p. 277

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Intendente Pina Manique, segundo Raul Brandão

«(…) misto de conselheiro Acácio e de polícia secreto. Eis aqui o homem… O que ele produz é espanto. Este sim, é compacto – é maciço – é sincero. Dos ofícios, da papelada, da frase gorda e caminhando com aparato atrás duma charanga, das suas palavras e das suas obras, conclui-se essa nítida verdade: foi um antepassado: encarnou uma época: foi um ser inteiriço, colocado no próprio meio, desenvolvendo à larga todas as suas faculdades. Chega-se a isto: a admirá-lo. Não tem uma única falha: é o representante autêntico do português grosseiro e mandão – em casa de seu sogro. Escarra grosso. Devia ter sido feliz, exuberante, solene, tenaz e inquisitorial. Mete medo. Teve às suas ordens cárceres, baionetas, esbirros; fez sofrer muita
gente de coração. Estou a ouvi-lo exclamar: –  É jacobino! é nação! – com os olhos arregalados de pavor. E esse pavor sente-o até à medula do seu ser. Para ele não existem dúvidas na terra: caminha sem hesitação, num traço recto e lógico. Faz respeito. Seu ideal de sociedade, é o de um povo servil, rei no alto e na corte, literatos pedinchões, fazendo versos nos anos dos fidalgos e em baixo a canalha. Aparecem bandos de crianças com fome nas ruas? Casa Pia com elas. E muita ordem e respeito, muito temor a Deus e a El-Rei Nosso Senhor, nada de livros nem de maquinações filosóficas, bons esbirros, e cárceres espessos para quem se atreva a pensar. De mais algumas estradas, trabalho, e cada qual em sua casa à noite com a família a rezar o terço. Remexeu tudo, vasculhou na roupa suja duma época e proibiu-se de escantilhão Voltaire e as poesias do abade de Jazente. Dizia condenando um livro adoptado para ensinar a lingua francesa: «Não é próprio adoptar as instruções dos indivíduos duma nação tão prevaricada, infeccionada de errados princípios». De toda a parte Ihe surgem conspiradores e conspirações. «Os fins destas reuniões fazem-me tremer» (16 de Agosto de 1794). E tremia. O melhor era acabar de vez com leituras, com a inofensiva e mazorra Gazeta de Lisboa. Ele irrompe da papelada e dos ofícios
intacto, completo, admirável, com a malta dos esbirros sujos e famélicos à roda. Lendo-o surge o homem a falar de papo, no tom de voz decisivo de quem tem o hábito de mandar, com a omnipotência dos que se sentem temidos. Passou por grandes
aflições – desculpemo-lo. Atrapalhou-se em contas, a ponto de ser necessário dar-lhe tudo por liquidado: não pensemos mais nisso, porque a um homem que viveu no terror perpétuo dos jacobinos, não lhe era possível descer à minúcias dum exacto guarda-livros. Em Manique é ainda o passado que rosna e mostra os dentes… Debalde, debalde.»

El-Rei Junot, Raul Brandão

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Revolução, segundo Raul Brandão

«A revolução é sempre um desenlace: estava feita antes de começar – e é mesmo essa a única realidade bem patente em cada alma. O que resta de pé são fachadas.», El-Rei Junot, p. 28.

«A revolução é feita por fantasmas, por um mundo esboçado, pelos esforços empregados de além-túmulo, pela força real que nos sustenta na vida.», p. 30

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Avô

Não falo com mortos e, portanto, não visito cemitérios. Prefiro viajar no tempo, sentado nas memórias ou imaginando o que diriam os meus (poucos, felizmente) mortos nesta ou naquela situação. Muitas vezes, imito-os, como se, por instantes, estivesse benignamente possuído pelos espíritos dos meus amados. Nada disso é suficiente, mas é a minha maneira de ter menos saudades, a minha maneira de chorar sem lágrimas e sem esgares de sofrimento.

Quando do funeral da minha avó, pude ver a campa do meu avô, o avô Estêvão, nascido há 107 anos no dia 12 de Maio. Nunca tinha lido aquilo que está escrito na sua lápide e nunca tão poucas palavras me pareceram tão justas. Hoje, lembrei-me da sorte que tive em conhecê-lo desde madrugada.

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Violência domesticada

A família: ele, à frente, com um cigarro na mão, a linguagem corporal de quem respira agressividade; um outro homem mais velho, calado como um sogro; uma criança; no fim do cortejo, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé.

Viro à esquerda e, para os deixar atravessar a passadeira, fico parado na faixa contrária. Agradecido, o chefe de família, grita para trás:

– Despacha-te! Olha o senhor!

A mulher, rouca, roufenha, dispara, nada conciliadora:

– Tem calma!

O homem vem até à cauda da comitiva, entre o ameaçador e o jocoso. A mulher dispara novamente, risonha e amedrontada:

– Anda! Olha o senhor!

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O vigor da razão dialógica

El 15 de mayo murió en su casa de Niedernhausen, a los 95 años, Karl-Otto Apel, uno de los mejores filósofos de los siglos XX y XXI. Nacido el 15 de marzo de 1922 en Düsseldorf, su biografía intelectual viene jalonada por estudios de historia, germanística y filosofía, con Erich Rothacker, en la Universidad de Bonn, y más tarde por la elaboración de una propuesta filosófica, que tiene por hilo conductor la atención al lenguaje como el lugar desde el que los seres humanos hacen ciencia y ética, desde el que son posibles la comprensión y la acción.

Su trabajo de habilitación (1961) versa sobre la idea del lenguaje en la tradición del humanismo de Dante a Vico, y en los años de profesor en Kiel, Saarbrücken y Fráncfort, donde permaneció desde 1972 hasta convertirse en profesor emérito en 1990, se adentró en los caminos de la hermenéutica de Dilthey, Heidegger y Gadamer, en el pragmatismo de Peirce, en la filosofía del lenguaje de Humboldt, Wittgenstein, Searle o Austin. Continuar a ler

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A vida interior da Guernica

 

La vida interior del ‘Guernica’

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Se não for imediato, não é prazer?

De modo muitas vezes implícito, a noção de prazer é associada ao imediato, como se o prazer nunca pudesse resultar de um processo mais ou menos demorado. No entanto, o caminho para o prazer pode ser tão ínvio como os do Senhor.

Esta ideia é transferida frequentemente para o campo da pedagogia, o que leva a uma sobrevalorização do lúdico e/ou dos desejos imediatos do aluno e a uma desvalorização do trabalhoso ou da cultivo da atenção e da paciência.

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Ser revolucionário

Cuando la gente escucha la palavra revolución, piensa inmeadiatamente en sangre y barricadas. Pero há habido revoluciones de terciopelo, igual que revoluciones violentas. La revolución bolchevique estuvo bastante libré de violência. Algunos processos de reforma han sido mucho más sangrientos que algunas revoluciones. En todo caso, las revoluciones no se producen de un día para otro. Las revoluciones que dieron lugar a las sociedades modernas de clase media tardaron siglos en evolucionarse. Marx alaba las clases medias como la fuerza más revolucionaria jamás vista en la historia de la humanidad. Supongo que un revolucionario es alguien que cree que no es possible tener el tipo de justicia y bienestar que necessitamos sin una transformación completa. Eso, para mí, sería un punto de vista realista, no extremista. La caída del apartheid en Sudáfrica también fue una revolución (política, no económica), y nadie considera fanático o extremista haberlo apoyado. Todo el que cree que fue correcto que Estados Unidos dejara de ser una colonia es un defensor de la revolución. Es decir, más o menos todo el mundo lo es.

Terry Eagleton, El Pais/Babelia, 06-08-2016

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O fundamentalismo e a interpretação dos textos

El auge del fundamentalismo islámico se conecta para Eagleton con otra de sus obsesiones: ¿cómo leer o cómo no leer ficción o poesía? “El fundamentalismo de cualquier tipo es, esencialmente, un error que se comete en torno a la naturaleza de la lectura. Imagina que el significado de los signos se fija, inmutablemente, por los tiempos de los tiempos. Pero el hecho es que una marca cuyo significado no pudiera cambiar de un contexto a outro simplemente no seria un signo. Los signos deben ser transportados de una situación y acumular nuevos significados en colaboración com los signos que los rodean. Por eso no puede existir la lectura sin la interpretación.

Para Eagleton, “el fundamentalismo tiene sus raíces no en el odio, sino en el miedo, el miedo a un mundo moderno y siempre cambiante en que todo está en movimiento, donde la realidade s provisória y con un final no definido y donde las certezas y los pilares más sólidos parecen haber desaparecido. En este sentido, es la otra cara del posmoderismo.

Entrevista a Terry Eagleton, El Pais/Babelia, 06-08-2016

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