O útil e o agradável

Las actividades más valiosas no tienen ningún propósito o función más allá de sí mismos: tocar música, hacer el amor, tomar vino, jugar con los hijos. Lo mismo se podría decir de los chistes. Es compartir la vida vida porque sí.

Terry Eagleton, El País/Babelia, 06-08-2016

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O Fim das Humanidades

 

O Fim das Humanidades

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As crianças precisam de artes e de histórias

 

Children need art and stories and poems and music as much as they need love and food and fresh air and play.

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Da obsessão utilitária à morte das humanidades

Quando, no mundo inteiro, as decisões sobre Educação se restringem aos custos, à empregabilidade e à criação de escravos, deixa de haver espaço para as letras e para as artes.

Las humanidades, cada vez más cerca de su fin: el STEM acabará muy pronto con ellas (Marta Jiménez Serrano)

The Morbid Fascination With the Dead of the Humanities (Benjamin Winterhalter)

The Real Reason the Humanities Are ‘in Crisis’ (Heidi Tworek)

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Leal coelha

Teresa Leal Coelho, especialista na modalidade de fuga em frente, deu uma entrevista ao Público. As suas declarações confirmam-na como um dos poucos exemplares de coelho de fila, mais um curioso cruzamento entre canídeos e roedores, com algum ADN suíno.

Com a desfaçatez de quem obedece, sempre leal, à ordem para morder, não se obriga a pensar e informa o povo de que os juízes do Tribunal Constitucional (TC) não têm condições para exercer o cargo, se não aceitarem ser criticados. A informação poderá ser preciosa, no dia em que os ditos juízes aceitarem ou rejeitarem as críticas de que foram alvo.

Parece-me evidente, por várias razões, que um juiz não faça comentários ao facto de um primeiro-ministro afirmar, por estar descontente com uma decisão, que é necessário escolher melhor os juízes do TC, tal como não terá nada a dizer acerca de uma deputada da nação que tem o desplante de afirmar que as decisões de um tribunal tiveram motivações políticas ou que houve juízes que “criaram a ilusão de que tinham uma visão filosófico-política que seria compatível com aquilo que é o projecto reformista que temos para Portugal no âmbito da integração na União Europeia.” As declarações do primeiro-ministro deverão ser ignoradas, uma vez que estão ao nível de um rapazola que chegou a presidente de um clube de futebol e põe a culpa nos árbitros; já Teresa Leal Coelho deveria ser obrigada a provar as afirmações que fez.

Para (re)conhecer Teresa Leal Coelho, vale a pena lembrar as suas passagens pelo Centro Cultural de Belém e pela administração do Benfica, no tempo de Vale Azevedo. Na primeira destas ligações, é possível encontrar, já completamente formados, o descaramento que lhe é tão útil e o desrespeito pelos juízes.

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Ratton expiatório

Não consigo resistir à vaidade de saber que sou co-responsável pela descoberta de mais uma entidade simbólica no interior da selva conceptual em que procuramos sobreviver, de modo mais ou menos racional.

A acreditar no google, a expressão “ratton expiatório” só existe num texto da minha autoria. Tenho de confessar que esta descoberta só foi possível graças à perseverança de Pedro Passos Coelho, o pecador contumaz que confunde um bode expiatório com este novo espécime.

É verdade que há dois aspectos que aproximam o bode e o Ratton: lidam com os pecados alheios e são escolhidos pelos pecadores.

A partir daqui, as diferenças são enormes. Com o bode é tudo mais simples: enviam-no para o deserto e aí morre, sepultando os pecados da comunidade. Por ser animal irracional e, portanto, privado de arbítrio, livre ou outro, não protesta: carrega as culpas alheias e bodeja uns lamentos incompreensíveis.

Ratton é bicho doutro calibre douto, o que o leva a pensar pelas suas próprias cabeças. Neste momento, o seu papel é ingrato, uma vez que é a única entidade que defende a Constituição, ou seja, os cidadãos, isto é, os valores da civilização ocidental.

Passos Coelho ainda tem as chaves do Estado e tem aproveitado os últimos três anos para assaltar o país. É também por isso que podemos entrever, com a ajuda da fonética, um outro valor simbólico: é Ratton que castiga os ratoneiros.

 

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A importância das palavras difíceis

 

Nem de propósito: ainda ontem, me indignava com a ideia de simplificar literatura em nome da vulgarização do saber e eis que, hoje, encontro um texto que inclui uma referência à importância das palavras difíceis:

(…) recordo-me sempre de quando lia Boa Noite, Ursinho! à minha filha mais velha. Na última história do livro, o Rato do Campo “toca tuba a noite toda”, impedindo os restantes animais do bosque de dormir. A situação leva-os ao desespero e então procuram o Castor, que promete ajudá-los a resolver o problema. Para tal, constrói uma harpa, cujo som é bem mais suave do que o de uma tuba e, quando lha oferecem, o Rato do Campo, maravilhado, exclama qualquer coisa agradável “colocando logo a sua tuba de lado”. Ora, estava eu, pela enésima vez, a ler esta história, já mais do que decorada, à media luz, visto que queria que ela dormise, quando me aconteceu o imperdoável: em vez de colocando, “li” “pondo logo a sua tuba de lado”. E diz-me a pequena, que na altura não tinha mais de dois anos: “Não é pondo, mamã, é colocando.”

Ora pois claro. Não é pondo. É colocando. (O pai ou a mãe que nunca tenha ouvido uma frase destas ponha o braço no ar!)

Há dois aspectos muito importantes nesta chamada de atenção que ela me fez. O primeiro é muito fácil de detectar: eu troquei uma palavra e ela, que sabia a história de cor, não perdoou e corrigiu-me. Mas o mais importante é analisar qual foi a palavra que eu troquei e qual utilizei em seu lugar.

Pôrcolocar são sinónimos – pelo menos no contexto em que eu os troquei. No entanto, a palavra colocar é mais difícil do que a palavra pôr. Ao fazer esta troca, eu reduzi o grau de dificuldade do texto – e não esqueçamos que é muito provável que isto me aconteça várias vezes ao longo da história, o que terá um efeito muito mau. E tem um efeito perverso pelo seguinte motivo: um dos principais benefícios de ler histórias às crianças é o que esta actividade implica em termos de alargamento vocabular.Se vamos substituir as palavras difíceis por palavras que utilizamos no dia-a-dia, estaremos a anular esta grande vantagem que a leitura diária pode representar.

Educar não é fugir dos caminhos difíceis; é ajudar a percorrê-los. Nada de novo, claro.

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