Arquivo de etiquetas: deslíngua portuguesa

Aluno é a tua tia, pá!

A iniciativa aqui relatada merece ser notícia e é digna de todos os elogios: em Leça da Palmeira, imigrantes têm acesso à aprendizagem de elementos básicos da língua portuguesa. A escolha da expressão “Português de sobrevivência” é feliz. Eis senão … Continuar a ler

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Ironizo-te

  “Jon Stewart e Stephen Colbert ironizam conservadores”   Os jornais como último reduto do cultivo cuidado da língua desapareceram e este título é a prova disso. Se a moda pega, poderemos passar a dizer coisas como “Desculpa, estava a … Continuar a ler

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Bota-abaixismo

Este termo terá sido inventado por José Sócrates para desvalorizar as críticas àquilo a que continua a chamar a governação, substituindo sem grandes vantagens estéticas a expressão “crítica destrutiva”. Com o olhar exsudando confiança, a mão direita em pose onanística … Continuar a ler

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Deputados em púbico

Fernando Madrinha e Daniel Oliveira, na mesma edição do Expresso, chamam a atenção para a falta de cultura literária e linguística que grassa pelas nossas classes dirigentes, com realce acertado para o episódio em que interveio o deputado social-democrata José Eduardo Martins, cuja indignação se manifestou pobremente pelo envio do socialista Afonso Candal para o território púbico, para além de ameaças em tom taberneiro. Leia-se o texto de Daniel Oliveira.

           

 

 

A arte do insulto

 

O que seria de Feliciano Castilho sem Antero de Quental? Quem seria Júlio Dantas sem Almada Negreiros? Mesmo recentemente, o veneno nunca faltou aos mais ilustres portugueses. Foi sobre Manuel Alegre que Agustina disse ser “o melhor dos poetas assim-assim”. E foi a pensar num outro escritor que Luiz Pacheco criou uma nova classificação: “abaixo de Namora”. Claro que nunca chegámos à sofisticação de um Winston Churchill. Quando Bernard Shaw enviou um telegrama jocoso a Churchill – “Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver.” – este respondeu: “Agradeço ao ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver.” Disse-lhe Lady Astor, durante uma visita ao Palácio de Blenheim: “Winston, se você fosse meu marido, eu poria veneno no seu café.” Ao que ele respondeu, sem nenhum cavalheirismo: “Nancy, se eu fosse seu marido, bebia-o”.

Bem sei que o genital vocábulo do deputado José Eduardo Martins veio como resposta a uma tosca ironia dessa figura incontornável da política nacional que dá pelo nome de Afonso Candal, uma prova viva do poder da genética. Mas esperava-se mais. De facto, e será talvez esse um dos sinais da crise do nosso sistema educativo, já não se insulta como antigamente. Falta requinte no verbo e subtileza no adjectivo. Não há conteúdo na baixeza, é pobre a forma do aparte. Por isso, do que me tem sido dado conhecer destes tribunos, restam-me de novo as sábias palavras do mais mortífero dos insultadores que a política já conheceu: têm todas as virtudes que odeio e nenhum dos vícios que admiro. 

                      

 

 

 

            Noutro contexto, com outros protagonistas, a resposta de Churchill a Lady Astor seria qualquer coisa como “Punhas-me veneno no café, minha vaca? Se eu fosse teu marido, perdias era os dentes todos e ainda te enfiava o café com a chávena pelo cu acima.”

 

            Leia-se, agora, o texto de Fernando Madrinha:

 

Sujeitos e predicados

 

Uma coisa é o presidente da República dizer que as leis são mal feitas, mas sem descer a pormenores para não envergonhar os legisladores. Outra coisa é vermos e ouvirmos o procurador-geral da República a pedir aos senhores deputados que façam lá o favor de tirar a vírgula entre o sujeito e o predicado. Ou a interrogar-se sobre o que quererá dizer “empoderamento” (do termo inglês empowerment, ao que parece), ou porque aparecem numa proposta de lei siglas incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Com exemplos tão concretos e esclarecedores como estes, ficamos a perceber melhor de que fala o presidente. E qual o nível de iliteracia a que se chegou nos mais altos poderes do Estado.

Três décadas de ensino unificado pontuadas por múltiplas reformas, qual delas a mais moderna e vanguardista, foi no que deram. Não temos, pois, de nos surpreender com o facto de ninguém no Ministério da Educação ter detectado os erros de português instalados no célebre Magalhães. Se os membros do Governo responsáveis pela elaboração de decretos e propostas de leis, bem como os seus assessores, juristas, consultores e altos quadros, escrevem como escrevem — ou, pelo menos, não se envergonham de assinar os textos que assinam —, porque hão-de os funcionários do Ministério da Educação incumbidos de acompanhar o Magalhães perceber a diferença entre ‘vês’ e ‘vez’, entre ‘acabas-te’ e ‘acabaste’?

Já quanto aos deputados, temos de ser ainda mais compreensivos. Desde logo porque há lá uns sujeitos sem outros predicados que não o de terem sabido manobrar para conseguirem um lugar na lista de candidatos. E, entre eles, também aparece quem esteja fortemente empenhado em reproduzir na Assembleia o ambiente de certas escolas onde, a par da ignorância, há quem cultive com gosto e garbo a linguagem de caserna. Foi o que fez aquele parlamentar do PSD, José Eduardo Martins, numa das últimas sessões, sem que se tenha ouvido um protesto — nem do presidente da Assembleia, nem de qualquer dos seus pares, nem do líder da sua bancada, que considerou suficiente um vago e parcelar pedido de desculpas. É, pois, muito improvável que o deputado em causa seja varrido da próxima lista de candidatos do PSD, como seria lógico e salutar depois do triste exemplo que deu ao país.

           

 

            É também aqui inestimável a crueldade do Procurador-Geral da República a dar lições de Português aos Deputados da Nação, que, pelo que se sabe, preferiram não mostrar indignação por terem visto arrastada pelo lodo a sua evidente incompetência linguística.

            O que é curioso notar em ambos os textos é a associação que os autores fazem entre essa mesma incompetência e o falhanço do sistema educativo. Fernando Madrinha, aliás, deixa uma palavra justíssima para o inevitável prejuízo provocado pelas sucessivas reformas. Pergunta-se se será este o mesmo Fernando Madrinha que tantas vezes tem elogiado o ímpeto reformista da Ministra da Educação.

            A verdade é que a competência linguística dos cidadãos portugueses tem vindo a diminuir progressivamente e o sucesso estatístico tem funcionado como o tapete para baixo do qual se varre esse lixo. Algumas vozes de bom-senso têm chamado sucessivamente a atenção para tal facto, mas para aqueles que nos governam interessa apenas a classificação e nunca a avaliação.  

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descriminação criminosa

Na verdade, o substantivo descriminação existe. É o mesmo que dizer absolvição, é igual a retirar a culpa a alguém que tenha sido acusado de algum crime. No fundo, é uma espécie de antónimo de incriminação.

Neste artigo, cujo título é “Autarcas do PS contra «descriminações»”, ficamos a saber que, e cito, “Os autarcas do PS estão contra o facto de um autarca que seja constituído arguido ter de suspender o mandato, por considerarem que se trata de uma «descriminação». Os socialistas vão, esta terça-feira, pedir esclarecimentos ao Governo sobre esta proposta.”

Deixem lá os autarcas com os nossos problemas e concentrem-se na repetida utilização do substantivo. O autor da notícia tem o cuidado de pôr a palavra entre aspas, para que saibamos que saiu da boca de outrem. O que me parece estranho é que se considere que alguém deixa de ser incriminado (ou seja, sujeito a “descriminação”), caso seja constituído arguido. Mas ser constituído arguido não é ser incriminado? E pode-se ser incriminado e descriminado ao mesmo tempo? Penso, aliás, que muitos autarcas sonham em ser alvo de descriminação.

Há, no entanto, outra hipótese: o autor da notícia ouviu uma coisa e escreveu outra. A lei do menor esforço, que rege a fala, levou o representante dos autarcas a pronunciar – e bem - ”descriminação”, pensando – digo eu – em ”discriminação”. Sendo certo que as duas palavras são, afinal, homófonas, resta-nos o contexto para saber qual havemos de escrever. Vejam, então, como uma vogalzinha pode fazer tanta diferença na lógica de um discurso.

Uma vez que, de acordo com o texto, as declarações dos edis não foram entregues por escrito, a escolha da vogal terá ficado a cargo de um profissional pago para não se enganar nem nas consoantes. Eis o resultado.

 

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Núvem de Tags?

Não é preciso ir longe para procurar esta expressão. Está nesta mesma página do lado direito e contém um erro e uma inutilidade. O erro está no acento, a inutilidade na palavra inglesa que poderia ser substituída por “Tópicos”, “Temas” ou “Assuntos”.

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pessoas com estas injúrias

            A confirmar-se esta notícia, só fica admirado quem chegou a acreditar que a privatização das televisões iria contribuir para uma melhoria de qualidade. Aliás, na mesma edição do Sunday Times, Bryan Appleyard faz uma reflexão acerca do problema, numa crónica cujo título é uma interrogação de resposta absolutamente incerta: “How bad can TV get?” Note-se, ainda, que a pergunta exclui a hipótese de a televisão melhorar.

            O que me traz aqui, no entanto, é comentar a qualidade da escrita do artigo publicado no Diário de Notícias de 5 de Junho. Leia-se a tradução das declarações do cirurgião plástico Peter Butler: “Temos de ter muito cuidado em evitar a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica. Programas como este podem reforçar a ideia de que a cirurgia ou outras intervenções conseguem resolver todos e qualquer problema de pessoas com estas injúrias. E não conseguem”.

            Traduzir implica, obviamente, conservar a informação original, mas não se pode fazer desrespeitando a língua de chegada.

            Em primeiro lugar, “ter cuidado em” é uma construção incorrecta. O que o jornalista queria escrever era “ter cuidado para” (noutro contexto, poderia utilizar “ter cuidado com”).

Logo a seguir, note-se o despropósito de uma expressão como “a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica”. Em termos formais, a contracção “das” substituiria com vantagem “destas que são as”. No que se refere ao conteúdo, basta ler que o cirurgião considerou que as pessoas com problemas faciais  são “some of the most vulnerable people in our society.”, ou seja, são algumas das pessoas mais vulneráveis e não as mais vulneráveis.

Mais à frente, deparamos com um rombo na concordância: “todos e qualquer problema”. Concedamos aqui a hipótese de se ter tratado de uma gralha.

O clímax desta má tradução, no entanto, está na expressão “pessoas com estas injúrias” (no original “people with these injuries”). A palavra “injúria” em português limita-se, ao campo moral, quando aplicada aos seres humanos. O termo inglês com a mesma origem latina, no caso das declarações do médico, refere-se obviamente a problemas físicos.

Finalmente, conceda-se alguma liberdade poética ao período final iniciado por uma conjunção copulativa a seguir a um ponto final, o que não acontece no original (“It can’t.”).

            Um jornalista é um profissional da palavra e deve ser rigoroso no seu uso. Este excerto foi escrito por alguém sem conhecimentos suficientes no que se refere à língua portuguesa. Para além disso, terá sido revisto por alguém que tinha a mesma competência. Outra hipótese é a de não ter sido revisto. Em qualquer dos casos, estamos diante de jornalismo de má qualidade, um jornalismo que despreza a ferramenta com que trabalha.

            Curiosamente, voltamos ao princípio: a comunicação social vive descuidada. Ética e gramaticalmente descuidada.

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