Quando simplificar é desistir

Patrícia Secco decidiu simplificar “O Alienista” de Machado de Assis. Segundo a responsável por este projecto, as frases do escritor brasileiro têm “cinco ou seis palavras que não entendem [sic]”, para além de construções “muito longas”. Patrícia afirma, ainda, que a “ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.” A senhora parece desconhecer que, em literatura, as palavras escolhidas por cada autor são, no mínimo, tão importantes como o conteúdo que o autor pretende transmitir, asserção que, ainda assim, peca por simplista.

Há uns anos, Luísa Ducla Soares alinhou num projecto semelhante, ao publicar um livro em que reconta seis contos de Eça, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. No fundo, a escritora optou por retirar um escritor da sua própria obra, contribuindo para que os leitores do seu livro fiquem com a ilusão de que leram Eça.

(Não deixa de ser irónico que Eça e Assis, dois génios da literatura e antagonistas numa polémica célebre, se vejam reunidos em tão triste ocasião.)

Confrontada com as críticas ao seu projecto, Patrícia Secco contra-atacou, arvorando-se em defensora dos desfavorecidos, defendendo que estes poderão, finalmente, ler Machado de Assis, quando, na realidade, Machado de Assis já lá não está.

Finalmente, José Maria e Silva, para além de criticar o aberrante conceito de simplificação, demonstra que Patrícia Secco nem sequer percebeu o texto de Machado de Assis, chegando mesmo a contrariar o conteúdo da obra alegadamente simplificada.

Este louvor da simplificação em benefício dos desfavorecidos constitui uma ilusão terrível, usada, nem sempre (raramente?) com boas intenções, para se criar estatísticas de sucesso em Educação ou para se defender um acordo ortográfico.

Defender a simplificação de conteúdos eventualmente complexos é, afinal, desistir de lutar pela existência de um sistema educativo exigente e inclusivo.

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2 respostas a Quando simplificar é desistir

  1. Concordo inteiramente com a sua opinião no que diz respeito à simplificação de textos. Acrescento apenas mais um exemplo: há uns anos, o jornal Sol (suponho que não estou enganada) lançou uma série de livros “adaptados”. A biblioteca da escola onde eu estava na altura, e também a da escola onde estou agora, têm imensos livros “adaptados” de obras famosas da literatura portuguesa: As Pupilas do Senhor Reitor, Os Maias, Mensagem e muitos outros. O mais grave, quanto a mim, é que colocam o nome do autor (Júlio Diniz, Eça, Pessoa) com destaque, como se eles tivessem mesmo escrito aquilo. E o nome do autor de facto surge em letras pequeninas, como se não interessasse nada. Sic transit…

  2. Pingback: A importância das palavras difíceis | os dias do pisco

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