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Olhos que não sentem, coração que não vê

                Segundo a TSF, a senhora Ministra, entre outras pérolas, terá dito que “não tem conhecimento de qualquer destes casos, que nem sequer costumam ser reportados ao Ministério, «porque as escolas intervêm, proporcionando ao aluno aquilo que são as suas necessidades de apoio».” 
             Confesso que também sou um bocado assim: quando não sei da existência de um problema é porque alguém está a resolvê-lo. Por exemplo, a esta hora, em Monção, há um senhor que não consegue abrir a porta de casa, mas como eu não sei disso, o mais certo é que a mulher lhe abra a porta por dentro. Perceberam? Eu também não.

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Com Santo Onofre

               Tenho o privilégio de acompanhar, há alguns anos, a vida da Escola EBI de Santo Onofre, nas Caldas da Rainha. Esse privilégio nasce de um outro, o de ser amigo do
Rui Correia, professor nessa mesma escola e autor do blogue “Postal” (
http://postal.blogs.sapo.pt). Tive oportunidade, também, de privar um dia com o Paulo Prudêncio, outro professor no mesmo estabelecimento e autor do blogue “Correntes” (http://correntes.blogs.sapo.pt).

            Agradeço a ambos terem-me dado a conhecer a vida de uma escola exemplar a vários níveis, como se pode concluir do seguinte excerto:

 

 

“O conjunto destas escolas tem desenvolvido projectos educativos que vêm arrecadando numerosos prémios nacionais atribuídos pelo Jornal Público, pela Associação Portuguesa de História, pela Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, pelo Plano Nacional de Leitura, pela Fundação Calouste Gulbenkian, só para referir alguns dos mais recentes; no ano passado foi uma das duas escolas seleccionadas para representar Portugal na Conferência sobre Inovação e Educação durante a presidência Eslovena da União Europeia; trata-se de uma escola que iniciou no concelho das Caldas da Rainha o processo de implementação dos cartões electrónicos dos alunos, numa iniciativa precursora que beneficiou, nessa altura, de uma cumplicidade diligente e memorável com a sua associação de pais e encarregados de educação; foi precursora na construção de instrumentos informáticos de gestão escolar contemporânea, louvada publicamente pelo Senhor Secretário de Estado da Educação, que a quis conhecer e enaltecer pessoalmente; foi o primeiro a instituir a matrícula automática de todos os seus alunos; foi pioneiro na implementação de atendimento aos seus utentes em regime de open-office; foi precursor na dinamização de plataformas de ensino e de coordenação pedagógica a distância, que hoje fazem parte irremovível do seu quotidiano operacional; foi pioneiro na articulação curricular que permitiu que todos os seus alunos do primeiro ciclo tivessem aulas de inglês, dez anos antes da iniciativa governamental o aplicar ao resto do país; é uma escola com experiência segura em programas comunitários (Arion, Comenius, Pestalozzi, Lifelong Learning Programme); os seus alunos são finalistas habituais em iniciativas nacionais de didácticas específicas (Olimpíadas da Matemática); é um agrupamento com uma elevada incidência de docentes pós-graduados, mestres e doutorandos; o agrupamento integra escolas que se situam em contextos escolares difíceis e que, não obstante, conseguiram, não apenas conter o abandono escolar a taxas ínfimas como melhorar, ano após ano, os níveis de aproveitamento e desempenho escolar; trata-se de um agrupamento que anualmente estrutura um plano de formação autónomo e plural, devidamente acompanhado pelo Centro de Formação que serve o concelho; um agrupamento que se habituou a proceder a uma contínua avaliação interna que mobiliza todos os departamentos curriculares; trata-se do primeiro agrupamento a instituir um sistema seguro e pesquisável de todas as suas actas entretanto digitalizadas; trata-se de um agrupamento que se orgulha de ter recebido inúmeros alunos com necessidades especiais graves numa parceria duradoura, consequente e profissional com o Centro de Educação Especial Rainha D. Leonor que o elegeu, durante anos, como seu parceiro privilegiado. Trata-se de uma escola que movimenta anualmente em acções de voluntariado cívico centenas de alunos e professores, que consistentemente vêm apoiando diversas entidades e iniciativas que sabemos como amparar. Trata-se, de facto, de uma escola com uma vocação de participação activa junto da comunidade; uma escola que criou, em colaboração com empresas e particulares, currículos adaptados pré-profissionais que permitiram integrar dezenas de alunos que entretanto haviam sido considerados de elevado risco de abandono, eliminando-o completamente. Trata-se de uma escola que mantém as melhores relações com a comunidade que serve e com a administração pública que dela se orgulha e que acompanha com proximidade (escola segura, câmara municipal e parceiros privados).” (http://postal.blogs.sapo.pt/arquivo/1091162.html)

 

 

               

            Como é evidente, uma escola não alcança este grau de excelência sem um grupo de professores de qualidade invulgar, porque, entre outros aspectos, souberam criar condições para serem como são. Curiosamente, esta escola alcançou este patamar de qualidade sem lideranças “fortes” e – pasme-se! – sem pôr em prática o novo modelo de avaliação.

            Num país civilizado, o Ministério da Educação teria todas as razões para apontar esta escola como uma daquelas em que há “boas práticas”, expressão tão do agrado desta equipa ministerial.

            Ora acontece que uma das qualidades dos professores da EBI de Santo Onofre é a de pensarem pela própria cabeça. Depois de terem pensado, deu-se a coincidência de nunca ter surgido nenhuma lista de professores candidatos ao Conselho Geral Transitório, o que levou a que este não se tivesse formado.

            Em resultado disso, o Ministério decidiu substituir o Conselho Executivo (com mandato até 2010) por uma comissão (em que participam dois membros da FNE). Realce-se que o Conselho Executivo cumpriu todos os procedimentos necessários ao lançamento do processo de eleição do Conselho Geral. Ou seja, o Ministério demitiu um Conselho Executivo porque este cumpriu as suas obrigações. Entre muitas coisas com lógica semelhante, seria como alguém ser multado por ter estacionado no sítio devido. Esta decisão ministerial deriva, evidentemente, de uma crença infantil nas “lideranças fortes”.

            Tenho orgulho de pertencer à mesma classe profissional dos professores de Santo Onofre e tentarei merecer essa dignidade. Este texto é a minha maneira de estar presente na concentração marcada para amanhã, nas Caldas da Rainha.

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Alexandre "Ace" Ventura

        As declarações de Alexandre Ventura, presidente do CCAP, obrigaram-me a escrever três comentários disparatados, um outro mais sério e uma proposta. Os três comentários vêm logo a seguir aos três excertos da reportagem do DN de ontem.

“Alexandre Ventura, que além de presidir ao Conselho Científico para a Avaliação dos Professores é também professor na Universidade de Aveiro, encarregou-se de visitar um terço das escolas que de forma voluntária se ofereceram para servir de casos de estudo da aplicação da avaliação. À sede do CCAP, na 5 de Outubro, em Lisboa, já chegaram 23 relatórios das equipas que visitaram os 30 estabelecimentos de ensino distribuídos por 17 distritos nacionais. “Neste momento podemos dizer que um dos factores determinantes no sucesso do processo é a liderança. Quando os órgãos de gestão são fortes e mais experientes, o processo decorre de forma mais serena”, adianta ao DN Alexandre Ventura, que acrescenta que, regra geral, os professores têm avançado e tentado resolver os problemas depois.”


Comentário: Este homem não precisa de inquéritos exaustivos, basta-lhe a intuição, a presciência. É uma Maya com menos seios, uma Blimunda que vê um país sem sair do gabinete, um Mestre Alves que poupa a vida às galinhas pretas. A ventura que tem no nome é do país que tal Alexandre tem. Agora se percebem as conclusões do relatório que pôs o primeiro-ministro a gritar “bravos” à Deborah.

Nas entrelinhas, recupera a ideia – clássica, como todas as ideias simples e brilhantes – da importância da liderança forte, diante da qual o subordinado alcança a alegria de deixar de pensar pela própria cabeça. O parágrafo termina em apoteose, com os professores a avançar e a “resolver os problemas depois”, como o touro na tourada.

Segundo Alexandre Ventura, “neste processo houve muita tendência para ouvir e ver o que os outros estavam a fazer e essas redes informais levaram as pessoas a articular as suas acções”. Mas a tese do presidente do Conselho Científico não implica uma critica à actuação sindical, “que naturalmente apelaram à luta dos professores”, até porque este foi um movimento muito assente na “proliferação de blogues, que juntamente com os outros actores criaram contra-informação, que acabou por influenciar os professores”.

Comentário: Fazendo uso de uma rara lucidez no campo da psicologia de massas, conclui esta coisa hedionda: as pessoas ouviram e viram o que os outros andavam a fazer e – horror! – articularam as suas acções. A culpa, no entanto, não é dos professores, que, “coitadinhos”, foram influenciados. Mesmo os sindicatos são desculpados, porque mais não sabem fazer do que apelar à luta, estás-lhes no sangue, pobrezitos. No fundo, isto foi tudo um problema de más companhias. Uma vez desmascarados os blogues e “os outros actores”, os professores poderão, guiados pela mão das lideranças fortes, redescobrir o caminho recto.

 

“No entanto, para o responsável, a realidade nas escolas é bem diferente. “Quando vamos ao terreno, quando percebemos que 75 por cento dos professores entregaram os objectivos individuais, temos um retrato bem diferente daquele que passou para a opinião pública”, conclui Alexandre Ventura.”


Comentário: É sempre de louvar a “ida ao terreno”. É a atitude do homem disposto a sujar as mãos, do ser superior que compreende o povo, que tem para o professor transviado uma palavra de consolo, é um pastor da “Igreja dos 75 por cento”. Pode, agora, a opinião pública ficar a conhecer a verdade, ver a luz, afinal.

 

            Agora, a sério:
 

O senhor Professor Alexandre Ventura poderia, se estivesse genuinamente interessado, realizar um inquérito, a fim de saber se os professores estão de acordo com esta avaliação e porquê. Em vez disso, faz de conta que os números têm significado, papagueando o discurso ministerial. Depois de ter participado no célebre relatório praticamente-da-OCDE, Alexandre Ventura faz questão de se manter do lado errado da História da Educação em Portugal, copiando os tiques do costume: alinhavar conclusões sem estudos que as sustentem e aceitar aparências como realidades.

A proposta:

            Gostaria de deixar aqui um desafio: se há professores que entregaram objectivos individuais e não concordam com a avaliação, seria importante tornar isso público, mesmo que implique assumir que o fizeram por medo ou por comodismo. Desse modo, seria possível mostrar à opinião pública o que pensam verdadeiramente os professores.

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