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A tasca do editorial

“Jornalismo” e “comunicação social”, ao contrário do que se pensa, não são expressões equivalentes. Fazer jornalismo é uma actividade caída em desuso, baseada no rigor e na análise. A comunicação social não é mais do que uma expressão equívoca que … Continuar a ler

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descriminação criminosa

Na verdade, o substantivo descriminação existe. É o mesmo que dizer absolvição, é igual a retirar a culpa a alguém que tenha sido acusado de algum crime. No fundo, é uma espécie de antónimo de incriminação.

Neste artigo, cujo título é “Autarcas do PS contra «descriminações»”, ficamos a saber que, e cito, “Os autarcas do PS estão contra o facto de um autarca que seja constituído arguido ter de suspender o mandato, por considerarem que se trata de uma «descriminação». Os socialistas vão, esta terça-feira, pedir esclarecimentos ao Governo sobre esta proposta.”

Deixem lá os autarcas com os nossos problemas e concentrem-se na repetida utilização do substantivo. O autor da notícia tem o cuidado de pôr a palavra entre aspas, para que saibamos que saiu da boca de outrem. O que me parece estranho é que se considere que alguém deixa de ser incriminado (ou seja, sujeito a “descriminação”), caso seja constituído arguido. Mas ser constituído arguido não é ser incriminado? E pode-se ser incriminado e descriminado ao mesmo tempo? Penso, aliás, que muitos autarcas sonham em ser alvo de descriminação.

Há, no entanto, outra hipótese: o autor da notícia ouviu uma coisa e escreveu outra. A lei do menor esforço, que rege a fala, levou o representante dos autarcas a pronunciar – e bem - ”descriminação”, pensando – digo eu – em ”discriminação”. Sendo certo que as duas palavras são, afinal, homófonas, resta-nos o contexto para saber qual havemos de escrever. Vejam, então, como uma vogalzinha pode fazer tanta diferença na lógica de um discurso.

Uma vez que, de acordo com o texto, as declarações dos edis não foram entregues por escrito, a escolha da vogal terá ficado a cargo de um profissional pago para não se enganar nem nas consoantes. Eis o resultado.

 

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pessoas com estas injúrias

            A confirmar-se esta notícia, só fica admirado quem chegou a acreditar que a privatização das televisões iria contribuir para uma melhoria de qualidade. Aliás, na mesma edição do Sunday Times, Bryan Appleyard faz uma reflexão acerca do problema, numa crónica cujo título é uma interrogação de resposta absolutamente incerta: “How bad can TV get?” Note-se, ainda, que a pergunta exclui a hipótese de a televisão melhorar.

            O que me traz aqui, no entanto, é comentar a qualidade da escrita do artigo publicado no Diário de Notícias de 5 de Junho. Leia-se a tradução das declarações do cirurgião plástico Peter Butler: “Temos de ter muito cuidado em evitar a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica. Programas como este podem reforçar a ideia de que a cirurgia ou outras intervenções conseguem resolver todos e qualquer problema de pessoas com estas injúrias. E não conseguem”.

            Traduzir implica, obviamente, conservar a informação original, mas não se pode fazer desrespeitando a língua de chegada.

            Em primeiro lugar, “ter cuidado em” é uma construção incorrecta. O que o jornalista queria escrever era “ter cuidado para” (noutro contexto, poderia utilizar “ter cuidado com”).

Logo a seguir, note-se o despropósito de uma expressão como “a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica”. Em termos formais, a contracção “das” substituiria com vantagem “destas que são as”. No que se refere ao conteúdo, basta ler que o cirurgião considerou que as pessoas com problemas faciais  são “some of the most vulnerable people in our society.”, ou seja, são algumas das pessoas mais vulneráveis e não as mais vulneráveis.

Mais à frente, deparamos com um rombo na concordância: “todos e qualquer problema”. Concedamos aqui a hipótese de se ter tratado de uma gralha.

O clímax desta má tradução, no entanto, está na expressão “pessoas com estas injúrias” (no original “people with these injuries”). A palavra “injúria” em português limita-se, ao campo moral, quando aplicada aos seres humanos. O termo inglês com a mesma origem latina, no caso das declarações do médico, refere-se obviamente a problemas físicos.

Finalmente, conceda-se alguma liberdade poética ao período final iniciado por uma conjunção copulativa a seguir a um ponto final, o que não acontece no original (“It can’t.”).

            Um jornalista é um profissional da palavra e deve ser rigoroso no seu uso. Este excerto foi escrito por alguém sem conhecimentos suficientes no que se refere à língua portuguesa. Para além disso, terá sido revisto por alguém que tinha a mesma competência. Outra hipótese é a de não ter sido revisto. Em qualquer dos casos, estamos diante de jornalismo de má qualidade, um jornalismo que despreza a ferramenta com que trabalha.

            Curiosamente, voltamos ao princípio: a comunicação social vive descuidada. Ética e gramaticalmente descuidada.

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