Concorrência em Educação

Cheguei a um texto de Lúcia Santos graças ao Paulo Guinote. A autora, Presidente da Juventude Popular de Coimbra e, muito provavelmente, apoiante do actual governo, manifesta dúvidas acerca da aplicação do conceito de concorrência como meio para melhorar o desempenho das escolas.

É certo que o texto padece de algumas ambiguidades, mas faz perguntas fundamentais, tanto mais surpreendentes quando sabemos que a autora pertence a um quadrante político frequentado por gente que olha para a concorrência como um processo infalível de melhoria da humanidade, à semelhança do que acontece com qualquer crente numa religião.

O membro desta seita, como qualquer fanático, tem um pensamento simplista, também no que se refere à concorrência:

1 – a concorrência é o único caminho para melhorar o desempenho de qualquer entidade, mesmo que essa entidade não seja uma empresa (de qualquer modo, para os deslumbrados do paradigma empresarial, o próprio mundo é, no fundo, uma empresa, pelo que não há actividade humana que não seja, afinal, empresarial)

2 – a concorrência tem sempre efeitos positivos, porque contribui para eliminar o mau ou o fraco.

Aplicando esta crença às escolas, bastaria, portanto, obrigá-las a concorrer umas contra as outras e as melhorias seriam inevitáveis.

Entretanto, os rankings escolares têm sido usados pelos fiéis de Nossa Senhora da Concorrência como o único instrumento de avaliação do desempenho das escolas. Como saber, portanto, se uma escola é melhor do que outra? Depende do lugar ocupado no ranking. Simples.

É claro que o crente, prisioneiro do dogma, não perde tempo a pensar e limita-se a acreditar que a classificação dos rankings é uma consequência directa do modo como as escolas são geridas, pondo de lado qualquer factor a montante ou paralelo, como, por exemplo, o estatuto socioeconómico ou sociocultural dos alunos, entre muitos outros.

Aceitemos que, no mundo genuinamente concorrencial das empresas genuínas, é natural que umas acabem por fechar ou por sentir mais dificuldades em vender o seu produto. No mundo das escolas, imaginando que as melhores não poderão absorver todos os alunos, o que deverá a sociedade fazer se as piores não melhorarem? Poderá a sociedade abandonar à sua sorte os jovens que, por alguma razão, não puderam aceder a uma educação de qualidade?

Quem trabalha no terreno, no entanto, sabe que estes problemas não se compadecem com simplismos religiosos, porque o sucesso dos alunos depende de múltiplos factores e não do milagre da concorrência. Quem trabalha no terreno também sabe que há escolas que funcionam bem e que nunca ficarão bem classificadas nos rankings, devido a muitos problemas que a concorrência não poderá resolver.

Nos últimos nove anos, o Estado foi tomado de assalto por fiéis desta igreja. É claro que não se trata de uma fé genuína, mas antes de um simulacro conveniente: ao reduzir a Educação a um território empresarial, os governos podem abster-se de resolver verdadeiramente os problemas, já que a concorrência tratará de tudo. Pelo meio, alguns privados poderão beneficiar dos dinheiros públicos, mas isso é outra parte da História.

Estando o montado o sistema para fomentar a concorrência, as escolas, cada vez mais, cedem à pressão da seita. São vários os problemas que daí advêm e Lúcia Santos aponta um deles: “Desejamos a implementação de uma lógica empresarial assente na diminuição dos gastos ao mínimo e em acções de marketing e publicidade para atrair alunos? Desta forma podemos estar a correr o risco de desviar as escolas do seu verdadeiro objectivo para as centrar na necessidade de assegurar a sua manutenção.”

 

 

 

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