Acordo ortográfico: os exageros de Henrique Monteiro

Mais uma vez, Henrique Monteiro resolve escrever sobre o chamado acordo ortográfico (AO90), enfadando-se com o facto de os portugueses serem “dados a exageros” e devido a, no que se refere ao tema em debate, haver “poucos […] que percebam do assunto ou que juntem um argumento que faça sentido.” Sem que se aperceba, Henrique Monteiro acaba por fazer um auto-retrato bastante rigoroso.

Seguidamente, tenta, sobranceiro, impor algumas regras para que a discussão seja séria e declara que “não vale argumentar com o facto de facto perder o c, porque tal não é verdade. Facto, em português continuará a escrever-se com c antes do t porque todos os portugueses, ao contrário dos brasileiros, leem [sic] esse c.”

Se o cronista Henrique Monteiro recorresse aos serviços do jornalista que foi, facilmente descobriria que as críticas sólidas ao AO90 não incluem nenhuma referência à imposição de suprimir o C de “facto”, mas sim ao facto de que tem aumentado a supressão de consoantes articuladas desde que o AO90 foi imposto na administração pública e em muitos órgãos de comunicação social. Esse fenómeno tem várias explicações que incluem problemas anteriores e paralelos à questão ortográfica e outros que decorrem da concepção e da aplicação do próprio AO90.

O antigo jornalista Henrique Monteiro poderia ter aconselhado várias leituras ao cronista que o substituiu. Entre muitas outras, poderia ter consultado os vários textos escritos por Francisco Miguel Valada no Aventar.

Prosseguindo na via de todos os que muito bem sabem pregar, Henrique Monteiro insiste em não ser sério na discussão, quando afirma que há quem queira “fazer crer” que a ortografia  é “o idioma em si”, o que não é verdade. No que se refere às relações complexas entre escrita e oralidade, mais uma vez, o cronista não resiste ao atrevimento próprio dos ignorantes, reduzindo a ortografia a uma “representação do idioma”. Mesmo não havendo esperança, recomenda-se a leitura, entre muitas possíveis, do magnífico artigo “O primado da escrita” do Professor António Emiliano.

No mesmo parágrafo, Henrique Monteiro explica que “convém levar em conta a modernidade.” Esta reflexão é consequência de o iPad do cronista corrigir “académico” para “acadêmico”. Conclusão: “Enquanto os grandes fabricantes não tiverem uma ferramenta do português que resulte de um acordo entre todos falantes de português, incluindo, sobretudo, o mercado brasileiro, estamos condenados a escrever, cada vez mais, na variante brasileira.”

Tremo: será que Henrique Monteiro não sabe que a acentuação das esdrúxulas não sofreu alterações com o AO90? A não ser assim, não se percebe muito bem o quer dizer o esforçado cronista.

No parágrafo seguinte, Henrique Monteiro quer ajudar o leitor a perceber que a ortografia “não é mais do que representação”. E como podemos saber isso? Porque a primeira acepção de “ortografia” do Moraes de 1945 é “representação, em geometria descritiva, de uma figura ou de um sólido por meio de projeções ortogonais”. Nestas alturas, lembro-me sempre da personagem Manuel, de Fawlty Towers, e apetece-me perguntar: “Qué?!”

Continuando a prelecção, à boleia de José Pedro Machado, cita um texto do século XVI, para concluir, triunfante, que já existiram outras ortografias do português, o que constitui mais uma variante a incluir no segundo mantra em defesa do AO90. Depreende-se, ainda, que mais uma reforma não fará diferença, até porque, evidentemente, a ortografia é só uma representação.

Depois, prescindindo da modéstia, remete os leitores para outra crónica da sua autoria, cujo conteúdo corresponde, na sua própria opinião, a uma “argumentação mais aprofundada.” Tive ocasião de escrever sobre esse texto.

De seguida, expõe quatro pontos que acrescentam tanto como tudo o que tinha escrito:

1) Insiste na ideia de que a “alteração ortografia (…) não altera a forma como as dizemos”, simplificando, mais uma vez, as relações complexas entre escrita e oralidade. A própria Nota Explicativa faz referência à possibilidade de que isso aconteça. Para além disso, ainda recentemente, uma defensora do AO90 fazia referência a esse perigo, imagine-se;

2) Explica que a “alteração ortográfica não implica que cada um passe a escrever de acordo com o novo modelo (salvo os professores nas salas de aula)”. Por ignorância ou leviandade, esquece-se de que, por exemplo, os alunos são obrigados a aplicar o novo modelo, para além de ignorar o caos ortográfico aprofundado pelo AO90;

3) Afirma que a “cedência ao Brasil é uma necessidade de quem tem 10 milhões de falantes contra 200 milhões.” Para Henrique Monteiro, o que interessa é, portanto, o tamanho: um país com mais habitantes terá sempre razão, especialmente se o assunto for tão pouco importante como a ortografia. O cronista teria muito para aprender com o magnífico editorial do Jornal de Angola;

4) Henrique Monteiro pretende demonstrar que o facto de haver poucas mudanças não justifica que se seja contra o AO90. Trata-se de uma prática acordista comum: indica-se uma percentagem falaciosa, ao mesmo tempo que se escondem valores absolutos, e passa-se ao largo de que há muitas alterações em vocábulos de utilização frequente.

Henrique Monteiro tem direito, evidentemente, a ser favorável ao AO90. Em texto cuja hiperligação já deixei mais acima, concluí: “Já se sabe que o jornalista Henrique Monteiro escreveu um texto de opinião, mas nunca hei-de perceber que se possa vestir a pele de um cronista, despindo o salutar hábito da investigação jornalística que deveria estar subjacente ao tratamento de um assunto que está para além de entusiasmos ou de emoções.” Só alguém que mantém estas características pode continuar a produzir falácias ou a cometer erros próprios de quem não perde tempo a informar-se ou a investigar. Isto é, verdadeiramente, um exagero.

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6 respostas a Acordo ortográfico: os exageros de Henrique Monteiro

  1. Adolphe Artin-d'´Equin diz:

    Caro Miguel,
    Estando de accordo consigo quanto a Emiliano, gostaria apenas de referir o seguinte quanto à existencia ou não de accentos na lingua portuguesa:
    Os romanos não usavam accentos ao escrever em latim. A lingua inglesa hoje não os usa, salvo em raros casos de palavras para elles estrangeiras. Os portugueses no seculo XVII practicamente não os usavam.
    Apenas em certos casos ― como o e/é; o a/à, ou o lembrara/lembrará ― convem de facto um accento. De resto, estes não teem qualquer razão de ser, a não ser indicar o que qualquer um de nós tem o dever de saber: o obvio. Repito: os romanos não o usavam; os portugueses antigos não o usavam; os ingleses hoje não o usam.
    Os accentos tonicos foram impostos por uma reforma sem duvida bem intencionada, n’uma altura em que a maior parte da população era analphabeta. Mas apenas indicam o obvio, ou o que deveria ser obvio. E grande parte de nós hoje não somos tão analphabetas como em seculos passados. Não necessitamos hoje de rodinhas na bicycleta.
    A melhor prova de tudo isto é que aposto que o Miguel não teve a mais minima difficuldade em ler tudo isto que aqui escrevo.
    Por incrivel e vergonhoso que seja, os anglo-saxões escrevem hoje um muito melhor latim (e grego) que os povos latinos. Se realmente nos quisermos approximar uns d’os outros devemos excluir accentos superfluos que apenas nos differenciam, e latinizar novamente a nossa escripta, para que esta volte ao seu velho esplendor de seculos passados. Incidentalmente, se assim o fizermos, approximar-nos-emos tambem muitissimo mais da lingua inglesa, afinal a lingua universal de todos nós. Isto sim, seria unir as linguas e facilitar a apprendizagem.
    É um sonho, bem sei. Mas é um sonho bonito.

  2. O que é que Henrique Monteiro percebe de Filologia ou de Línguística nos vários ramos especializadíssimos em que estas duas áreas científicas se desdobram?… Será que um problema tão complexo como é a elaboração competente e responsável de um verdadeiro acordo ortográfico pode ser objecto de meras opiniões de curandeiros?…

  3. Souto diz:

    Sempre o António Emiliano, como se fôssemos todos burros e não soubéssemos que há outros linguistas que sabem muito mais sobre ortografia e que não são monárquicos nacionalistas radicais opostos a qualquer reforma ortográfica com o Brasil. Deixe de tratar os outros como burros. Não concordar com o António Emiliano não é ser ignorante, é ter hipótese de não ser um radical.

    • António Fernando Nabais diz:

      Fico à espera do nome dos outros linguistas e indicação dos respectivos argumentos, sendo que não me interessa em que área ideológica se movimentam. Entretanto, também seria boa ideia explicar quais os erros cometidos por António Emiliano.

    • Miguel diz:

      Radical foi o Antônio Houaiss, que, com o advento do computador, quis acabar com todos os acentos na língua portuguesa, porque os primeiros computadores não permitiam escrevê-los. Isso é ser radical, tomar uma idea impulsiva, e diga-se ridícula, por causa de uma invenção tecnológica, em vez de sugerir que talvez se devesse produzir computadores melhores, coisa que obviamente depois veio a acontecer. Pare para pensar bem no que ele queria fazer: ele queria mudar uma língua inteira, falada por 200 milhões, por causa de uma invenção tecnológica. Isso é insano.

      Felizmente a razão prevaleceu.

      António Emiliano parece-me uma pessoa prudente, que não se mete em aventuras só para pertencer aos ditos progressistas. E ainda bem; precisamos de pessoas que reflictam, meditem calmamente, e até que sejam um bocado pessimistas. Pessimismo é seguro, não magoa ninguém. Optimismo, especialmente o tipo utópico que informa muita da vontade dos acordistas de verem a língua portuguesa conquistar o mundo, como se fosse assim tão fácil, sempre foi perigoso. Optimismos, utopismos e progresso forçado por uns quantos iluminados deu ao mundo a União Soviética. Pare para pensar nisso também.

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