Governo organiza Factor-X do empreendedorismo e da ciência

Como o tempo passa: parece que foi há pouco mais de dois anos que um membro do governo aconselhou os jovens portugueses a emigrar e abandonarem a sua zona de conforto. Parece e foi, que o tempo tem destas estranhas coincidências. Miguel Mestre, autor do incentivo, viria a ser desconfortavelmente exonerado por ser secretário de Estado de Miguel Relvas, esse confortável emigrante.

Mestre, fazendo jus ao apelido, explicava magistralmente que o jovem desempregado deveria emigrar, porque, se voltasse, anunciava, “regressará depois de conhecer as boas práticas” do outro país e poderá “replicar o que viu” no sentido de “dinamizar, inovar e empreender”. Mestre tinha razão: se o jovem, vítima do conforto do desemprego, ficasse em Portugal, não poderia conhecer boas práticas. Aqui, só más companhias, cafés manhosos ou, pior, secretarias de Estado. O jovem faria melhor em sair, para, finalmente, aprender e docemente replicar. O jovem, depois de desconfortado, seria o nosso mestre.

Entretanto, Mestre saiu, mas a lição ficou: o governo prosseguiu patrioticamente a missão de convencer mais cidadãos portugueses a sair do país, desempregando-os e indo ao pormenor de cortar na investigação científica, até porque, aqui, como se diz nas tascas, entre copos de três, não se aprende nada.

O tempo passou e, como sempre faz, reclama, agora, a cicatrização das feridas que ele próprio abriu. O governo, intérprete do tempo, diz que chegou a altura de recuperar talentos emigrantes e de recrutar valores imigrantes. Com o tempo, acaba sempre por haver mais espaço, afinal.

E é para ocupar o espaço que o tempo deixou sem talentos que o governo decidiu criar, precisamente, os vistos-talento, uma espécie de Factor-X para empreendedores e cientistas estrangeiros, gente que está preparada para replicar boas práticas para deleite e aprendizagem dos pobres de nós. Alguns poderão estranhar que, ao mesmo tempo, o governo tente reter a saída de portugueses, mas isso é próprio de quem não quer ver que este executivo acelerou a História: as melhorias foram tão rápidas que há emigrantes portugueses que apenas tiveram tempo para chegar a Badajoz e sentiram o chamamento da prosperidade das contas públicas, estando, agora, prontos a replicar o caramelo da Extremadura.

Felizmente, temos um governo habituado a produzir programas de entretenimento, como foi o caso da recente “Factura de Sorte”, que será apresentado por Pedro Passos Coelho, considerado já por muitos a Oprah portuguesa.

Pedro Lomba, que tinha sido maldosamente enviado em busca dos briefings diários, terá a oportunidade de dirigir o Factor-X dos talentos migrantes, um programa a sério, com jurados e tudo. O presidente do júri, aliás, já é conhecido: será alguém que soube sair da sua zona de conforto e emigrar para regressar cheio de “mais-valias”. Estamos a falar, evidentemente, de José Sócrates.

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