Leitão e horários-zero

Porcos-e-tomadasVítor Cunha é um dos autores do blogue Blasfémias. Sendo extremamente versado em certos e determinados temas, é, também, um dos muitos milhões de especialistas portugueses em Educação e não me espantaria, até, que fosse o responsável por ter ensinado Cristiano Ronaldo a marcar livres directos.

O facto de o recente episódio bairradino ter suscitado muitas piadas óbvias, envolvendo ladrões roubados e toda uma suinicultura de alusões, levou-o a desargumentar infantilmente, recorrendo, agastado, a um enunciado que se poderia sintetizar em qualquer coisa como “Ai é? Ai é? Ai os meninos do CDS têm de ser castigados porque andam a roubar as pessoas? Ai é? Então…então, os professores que têm horário-zero também podem ser roubados, porque também andam a roubar. Toma!”

(Aproveito para agradecer a Assunção Esteves a inspiração necessária para me ter lembrado do verbo desargumentar. Sem ti, Assunção, teria inconseguido.)

Teria muito mais a dizer sobre as palavras de Vítor Cunha (a quem endereço um oinc sentido), mas curvo-me e calo-me, diante das palavras de André, um comentador que deixa tudo dito:

Não querendo defender o proprietário do restaurante, acho que isto foi um fantástico golpe publicitário para se aproveitar da decadência do governo e colocar os restaurantes nas bocas do país. No entanto, analisemos o argumento do Vitor: os professores em horário zero roubam os contribuintes porque estão em horário zero, mas como o Vitor admite eles não passam de funcionários públicos.

Ora, sabendo que os funcionários públicos não tiveram qualquer poder de decisão (de facto, a culpa de estarem com horário zero enquanto outros professores não têm tempo para trabalhar porque o ministério da educação decidiu que tinha de reduzir o número de professores, custasse o que custasse) sobre o seu horário zero, até à demagogia do ministério da educação entrar em ação, eles sempre tiveram trabalho (sendo que agora, por decisões administrativas do regime centralizado) os outros funcionários estão sobrecarregados enquanto a qualidade do serviço diminui e os funcionários estão impedidos de trabalhar porque o regime centralizado não quer admitir que aqueles funcionários são necessários (por menos o Brejnev levou o regime soviético à falência). Vistas as coisas, quem rouba não são os funcionários, impelidos por fatores externos à sua vontade, mas o próprio governo.

O mesmo não se passa com os militantes do CDS. Eles são militantes daquele partido de livre vontade, escolheram e apoi(ar)am este governo e este vice-primeiro-ministro, sendo a causa primária dos roubos dos portugueses (e, ironicamente, dos próprios horários zero de que os funcionários que segundo o Vitor nos roubam, são vítimas). De facto, aqui eles podem ser considerados ladrões (ou pelo menos cúmplices ativos, enquanto que os funcionários serão apenas cúmplices passivos) por qualquer cidadão português.

Claro que estou apenas a contestar a falibilidade do argumento do Vitor, sendo que nenhum cidadão merece ser roubado, mesmo sendo uma das causas primárias da existência deste governo (que facilmente poderia ser acusado de crimes contra a humanidade, mas isso qualquer governo de tendências neoliberais podia…). Afinal, existe a igualdade perante a lei (e aqueles cidadãos não devem ser roubados só por serem burros o suficiente para apoiar o CDS). Mas esperem, não são os apoiantes desse partido (juntamente com os do PSD) que defendem o fim de princípios básicos da Constituição, tais como o Princípio da Confiança? Então por que razão os outros princípios básicos da legislação portuguesa lhes devem ser aplicados? Quem defende o fim da democracia deve aceitá-la, mesmo que isso implique ao proprietário de um restaurante aplicar os preços arbitrariamente.

Afinal, parece mesmo que defendo que se roube os militantes do CDS, visto que eles próprios defendem o fim da aplicação da lei base da república portuguesa, e se eles próprios defendem que a lei deve ser desrespeitada, então evidentemente que são livres de ser roubados…

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Uma resposta a Leitão e horários-zero

  1. Já para não dizer que, se há horários-zero, é porque muitos alunos estão a ser desviados para colégios com contratos de associação.

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