Eusébio, a minha personagem favorita

EusébioA minha obsessão pelo futebol começou quando Eusébio estava a terminar a carreira. No ano em que vivi em Tomar, ainda tive oportunidade de ver jogar o que restava dele, quando fez alguns jogos pelo União, acompanhado por Simões, o seu irmão branco. Alguns anos depois, completamente por acaso, assisti a um jogo entre as Velhas Guardas do Benfica e da Académica, em Coimbra, no Estádio Universitário

É evidente que, em ambas as ocasiões, a técnica ainda lá estava, porque é algo que sobrevive à juventude e à velocidade, mas o Eusébio explosivo dos anos 60 só faz parte das minhas memórias por ser personagem de façanhas que o meu pai me contava, as mesmas que eu repetia aos meus amigos, sempre como se tivesse lá estado, que é um dos grandes segredos de qualquer história, mesmo que fantástica.

E o Eusébio que bebi das histórias do meu pai era fantástico sob vários pontos de vista, incluindo o de ser uma personagem do mundo da fantasia. Um exemplo: o remate de Eusébio era de tal modo potente que tenho a memória nítida de uma fotografia que nunca vi, em que o guarda-redes adversário está à espera da marcação de um penalty, ao mesmo tempo que o Eusébio já está a comemorar o golo e a bola aninhada na baliza.

Os filmes que realizei, sempre com guião do meu pai, incluem mudanças de direcção e de velocidade completamente imprevisíveis, gestos de abnegação e uma resistência física que o levou a aguentar metade dos coreanos em 1966, até entrar na área e ser rasteirado, num jogo tão épico que só poderia ser uma dessas impossibilidades de que a realidade está cheia.

Para além do portento físico e técnico, Eusébio era uma figura rara de desportista. Outra curta-metragem que está guardada nos meus arquivos de lances que não vi corresponde a um cabeceamento. Era impossível defendê-lo por ter sido feito a curta distância da baliza, atingindo o solo para voltar a subir, golo antes de entrar. Impossível?, perguntaria uma daquelas vozes graves dos trailers. Seria, se na baliza não estivesse Vítor Damas, que mudou o curso da história que já estava prestes a ser cantada. Imediatamente, Eusébio cumprimentou o adversário. Nos dias de hoje, as estrelas televisivas que jogam futebol estariam mais preocupadas em exibir a frustração do que em exaltar o mérito alheio.

Todo este Eusébio era verdade, porque muitos outros, para além do meu pai e para além do Benfica, mo confirmaram. Foi com Eusébio e com o meu pai que aprendi a gostar tanto de futebol como gosto e a gostar mais de futebol do que do clube de que sou adepto. Obrigado.

 

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Uma resposta a Eusébio, a minha personagem favorita

  1. André diz:

    por acaso não dispõe de nenhuma imagem do Eusébio no União, não?!
    visto que viveu em Tomar nessa epóca, tem memória de um acidente de viação que marcou muito essa época e nomeadamente o Guarda Redes Marito e o Veríssimo?
    Cumprimentos
    André

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