Afinal, há consoantes mudas com valor diacrítico?

Já tive ocasião de comentar dois textos de Lúcia Vaz Pedro (“Grafias duplas e uniformização ortográfica” e “As duplas grafias como falsa questão”). Ontem, numa página brasileira descobri um artigo da mesma autora.

De uma maneira geral, a articulista continua a revelar uma fragilidade argumentativa que não me surpreende, uma vez que, de qualquer modo, me parece muito difícil apresentar argumentos fortes a favor do AO90.

Devo dizer que, como crítico do dito acordo, concordo com algumas afirmações de Lúcia Vaz Pedro, como acontece no primeiro parágrafo: efectivamente, a questão das grafias duplas tem “levado à ocorrência de algumas confusões.”

A autora dedica-se, então, a comentar uma dessas confusões: a supressão generalizada do C em “facto”. Entretanto, seria importante que a autora não confundisse “consoantes surdas”, expressão que utiliza duas vezes, com “consoantes mudas”, aquelas que estão no cerne deste texto.

O facto é que há muitos portugueses a escrever “fato” em vez de “facto”. Lúcia Vaz Pedro atribui esse erro a “falta de conhecimento”. É, no mínimo, redutor, uma vez que o erro tem razões que a razão desconhece e que a linguística reconhece (como sucede com o fenómeno da analogia, fonte de enunciados como “tu fizestes”). Assim, mesmo utentes minimamente informados, diante da queda de consoantes não articuladas (como acontece ao “ato” qus substituiria o “acto”), acabam por fazer o mesmo, mais ou menos inconscientemente, a consoantes que se pronunciam.

Graças ao trabalho do Francisco Miguel Valada, ficamos, aliás, desconfiados de que o Diário da República está transformado num roupeiro, tal a quantidade de fatos que aí se guardam.

Nem de propósito, ao ler, hoje, uma reportagem no Notícias Magazine de 15 de Dezembro, deparo com o seguinte: “Dá formação em muitos países, mas o amor pelos cavalos portugueses, o fato de o pai cá viver há 25 anos (…)”.

A verdadeira surpresa que o texto de Lúcia Vaz Pedro me proporcionou, no entanto, surge nos últimos dois parágrafos.

Muitos defensores do AO90 desvalorizam completamente a argumentação de que haja consoantes mudas com valor diacrítico, isto é, consoantes que não se pronunciam e que servem para abrir o timbre da vogal anterior. Os mesmos defensores afirmam, de modo coerente, que a supressão dessas consoantes não terá consequências na pronúncia das palavras. Não é o caso de Lúcia Vaz Pedro, que, a propósito da supressão do P em “recepção”, afirma: “a queda do /p/ implica que a vogal anterior, o /e/, feche, conduzindo à ambiguidade na oralidade, devido à existência da palavra ‘recessão’.”

No parágrafo final, declara que esse será “o preço a pagar pelo desaparecimento de algumas consoantes surdas. Esperemos que a memória auditiva dos falantes permita que o /e/ se mantenha aberto a longo prazo.”

Lúcia Vaz Pedro reconhece, portanto, que há consoantes que desempenham uma determinada função e defende, ainda assim, que devem ser suprimidas. Perdoe-se-me o humor negro, mas esta argumentação faz tanto sentido como amputar uma perna saudável e, portanto, necessária, mantendo a esperança de que a memória corporal ajude a pessoa a caminhar. Se essa amputação se fizer para ficar igual a outros amputados, o humor torna-se demasiado negro para ser humor.

 

 

 

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4 respostas a Afinal, há consoantes mudas com valor diacrítico?

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