Mastim Avillez ladra e a caravana passa

 

Martim Avillez Figueiredo é um dos muitos exemplares que gosta de escrever sobre o que não sabe, sobretudo se o tema for Educação. Como qualquer ignorante atrevido, a inconsciência da sua própria ignorância leva-o a querer ensinar. A democracia existe, também, para que as pessoas tenham direito a dizer e/ou a escrever disparates. Martim exerceu esse seu direito no Expresso de ontem, comentando o que se passou no dia da prova a que foram sujeitos alguns professores contratados.

Leia-se, com proveito, o que o Paulo Guinote e o Zé Morgado já escreveram sobre o texto de Martim.

Começa por dizer que os professores “avaliam por exames”, uma expressão errada na forma e no conteúdo. Na verdade, os professores não avaliam os alunos recorrendo a exames. Os professores, entre muitas outras coisas, podem preparar os alunos para exames. Os professores avaliam os alunos, ao longo de um ano lectivo inteirinho, recorrendo a muitos instrumentos de avaliação, sendo que os exames não pertencem a esse rol.

O segundo parágrafo constitui um outro amontoado de frases e períodos confusos, mas, por estar habituado a decifrar enunciados produzidos por gente com dificuldades na utilização da língua materna, consigo perceber que

     – há uma “matilha que instrui professores”. Martim, de uma penada, consegue chamar “cães” aos sindicalistas, o que, como insulto, é pouco original. Por outro lado, consegue rebaixar ainda mais os professores, bichos gregários dominados por canídeos. Os professores, espécie ovina, só conseguem tomar atitudes se receberem instruções caninas.

     – os professores não assumem as responsabilidades pelos resultados dos alunos nos testes internacionais (que, segundo Martim, servem para medir a “eficácia dos alunos”). No final do parágrafo, explica que o sucesso dos alunos depende, também, dos professores. Se seguíssemos todos o pensamento básico de Martim e se, portanto, aceitássemos que os professores são o principal factor do sucesso educativo, teríamos de dar à classe docente todo o crédito pelos resultados dos testes PISA.

O Zé Morgado e o Paulo Guinote já comentaram a afirmação de Martim acerca de os professores deverem gerar alunos. Também podemos colocar a hipótese de que Martim esteja convencido, desde criança, de que são os professores que trazem os bebés e não as cegonhas parisienses. Tocante ingenuidade! 

A seguir, Martim afirma que Crato “não quer um modelo à alemã, em que os alunos com menos queda para o estudo são encaminhados, logo na quarta classe, para áreas de ensino alternativo, ficando-lhes praticamente vedado o acesso à universidade.” É algo grave que Martim, como especialista em Educação, não saiba que a designação “quarta classe” já não exista há vários anos. É igualmente grave que o pedagogo Martim ignore que este governo fez tudo para estabelecer em Portugal o tal modelo à alemã e é gravíssimo que Martim, profundo conhecedor do sistema educativo, desconheça que já está no terreno uma vergonha chamada ensino vocacional. Para além disso, Martim parece não estar informado sobre o modo como o ensino profissionalizante está a ser pervertido e transformado em fornecimento de mão-de-obra infantil.

Muito mais haveria a ensinar a Martim, mas um mastim ensinado a atacar só conhece a voz do dono. Cabe à caravana, depois de tentar um pouco de pedagogia, prosseguir o caminho. Vamos em frente.

 

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