A pressa é inimiga da Educação

A Educação é um território frequentemente invadido por ignorantes atrevidos que desprezam os que trabalham nas escolas com a mesma sobranceria com que os colonizadores decidiam que era necessário civilizar e evangelizar indígenas evidentemente ignaros.

O atrevimento do ignorante nota-se na facilidade com que debita opiniões sobre o que não sabe. As razões para se ser ignorante podem ter na sua origem a impossibilidade de se informar, mas, na maior parte das vezes, derivam da total ausência de vontade de se informar, porque, entre outras razões, correr-se-ia o risco de se ser obrigado a exprimir uma opinião contrária à sua própria crença.

Uma das muitas coisas que o ignorante ignora, no que se refere à Educação, corresponde ao facto de que os efeitos da acção educativa são sempre mediatos, o que deve levar-nos a analisar dados, usando do maior distanciamento possível e resistindo, ao máximo, a preconceitos ideológicos. Ao mesmo tempo, as ilações a retirar devem estar sujeitas a uma dúvida metódica que é tão saudável como estranha numa época em que se exprimem tantas certezas absolutas. Convém, é claro, não esquecer que não há ninguém melhor do que um ignorante para ter certezas absolutas.

Num ano em que se juntou o resultado dos testes PISA à habitual divulgação dos rankings, os ignorantes atrevidos agitaram-se nas suas tribunas e deixaram escapar muitos disparates, porque o ignorante atrevido sofre do problema de opinião precoce:

– no que se refere aos rankings, os crentes nas virtudes absolutas da privatização global voltaram a explicar que a solução está em privatizar, uma vez que são as escolas privadas que estão no topo da classificação, e ponto final parágrafo. Os outros factores exógenos, como o estatuto socioeconómico ou sociocultural da família, são absolutamente desvalorizados, como faz José Manuel Fernandes, ao explicar que já houve investimentos mais do que suficientes na escola estatal para que se possa continuar a fazer referência a esses factores, não colocando, portanto, a hipótese de que o investimento não tenha resolvido os problemas sociais, realçando, como exemplo, as obras da Parque Escolar, numa estranha associação entre construção civil e iluminação interior;

– a queda da Suécia privatizadora e a contínua subida do Portugal comunista nos testes PISA fez disparar as sirenes no terreno dos ignorantes atrevidos da direita, ao ponto de Vítor Cunha ter tentado explicar a ideia de que as falhas suecas se deviam ao afluxo de emigrantes. É estranho, no entanto que tantas escolas, tão virtuosas porque privadas, não tenham conseguido resolver o problema descoberto pelo especialista blasfemo. Descobrir que os fundamentos de uma religião ou de uma ideologia são menos sólidos do que se pensava é sempre traumático: Vítor Cunha está a olhar para as escolas privadas suecas com o mesmo espanto horrorizado com que um comunista empedernido terá visto cair o Muro de Berlim;

– José Sócrates, um dos mais bem classificados no ranking dos ignorantes atrevidos, já veio afirmar que os resultados dos testes PISA são resultado da acção dos seus dois governos, o que poderia ter piada se não tivesse sido tão grave. É o costume: já em 2010, o mesmo Sócrates tinha falhado na explicação dos testes PISA 2009, utilizando a mesma técnica de José Manuel Fernandes, ao ignorar o maior número possível de factores e ao tirar conclusões precipitadas, como qualquer ignorante atrevido que se preze.

Entretanto, nas escolas, continuam directores e funcionários a permitir que tudo vá funcionando, suportando as decisões criminosas de ministros ignorantes e as opiniões de ignorantes que não são ministros.

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