A reprovação de Henrique Monteiro

tinha-noJá uma vez, a propósito do chamado acordo ortográfico, tive ocasião de me aperceber da pequenez argumentativa de Henrique Monteiro, ou, na melhor das hipóteses, do desleixo de alguém que, por ter uma tribuna prestigiada, deveria ser mais cuidadoso. Nada de novo no Expresso, também quando se escreve sobre Educação.

Desta vez, Henrique Monteiro resolveu explicar ao mundo por que motivo(s) é necessário que os professores contratados se sujeitem à prova imposta pelo Ministério da Educação.

Assim, afirma que os professores são “contra um exame de acesso à profissão.” Para se ser professor, regra geral, é preciso ter tirado uma licenciatura que lhe confere conhecimentos científicos, didácticos e pedagógicos. No fim dessa licenciatura, o futuro professor faz um estágio pedagógico, numa escola, ficando, deste modo, habilitado a dar aulas. Acresce a isto que muitos dos professores que vão ser sujeitos à prova já dão aulas há vários anos, pelo que acrescentam à formação inicial a experiência profissional.

Alguns defensores da prova, no entanto, justificam a sua necessidade com o anúncio de que há alguns professores incompetentes, mesmo depois de terem realizado o percurso descrito no parágrafo anterior. Em primeiro lugar, isso faz tanto sentido como afirmar que, à cautela, devemos prender toda a gente, porque há alguns cidadãos que cometem crimes. Para além disso, gostaria de saber o que se deverá fazer aos professores incompetentes que consigam obter aproveitamento na prova, o que é perfeitamente possível, já que a avaliação do trabalho de um professor não se faz com base numa prova escrita, por muito bem elaborada que seja (ou que fosse).

Henrique Monteiro, no penúltimo parágrafo, explica que, afinal, a prova é uma exigência da modernidade. Releia-se a pérola:

Mas a uns e outros, segundo me parece, o que lhes custa é pôr-se à prova. Pois é, somos uma sociedade em que ninguém gosta de o fazer. Os professores eram-no porque tinham um curso… Quem tinha um curso, tinha-no porque era filho de quem já o tinha, ou porque os pais tinham feito um esforço incrível para que os filhos o tivessem. Era um mundo imutável, ou em que a mudança, a haver, era lenta, segura e sempre para melhor. Hoje, todos estamos colocados em causa – nos salários, nos empregos, nas reformas, nas pensões que pensamos vir a ter, nas idades de reforma. Hoje os bens tornaram-se mais escassos, há melhores e piores, há ‘rankings’, há hierarquias, há prevalências e… há provas e exames.

Henrique Monteiro retira mérito, portanto, a todos os que licenciaram nos tempos em que isso, por razões sociais, estava apenas ao alcance de uma minoria. O problema dos professores residiria, portanto, no facto de serem licenciados sem valor, meros herdeiros de privilégios ou de esforços paternos. Ficamos sem saber a partir de que data as licenciaturas passaram a ser válidas. Pergunto-me, ainda, se a sociedade não deveria obrigar mestres e doutores a realizar provas que confirmassem, talvez finalmente, se os graus obtidos merecem confiança, já que o mundo de hoje, ao contrário do de ontem, já não é “imutável”.

Para Henrique Monteiro, no entanto, não há nada válido e todos devem ser constantemente sujeitos a provas e exames. A que se deve essa invalidade total? À escassez de bens, ao facto de haver melhores e piores, rankings, hierarquias e prevalências. Segundo o informado cronista, é por estas razões que as pessoas devem ser avaliadas. No que se refere aos professores, nem uma palavra sobre a importância de melhorar a formação inicial e de recuperar a formação contínua ou sobre muitos outros aspectos que prejudicam as condições de aprendizagem dos alunos.

Para além da pobreza argumentativa, Henrique Monteiro ainda escreveu “tinha-no”, cometendo um erro de palmatória. Talvez seja uma gralha, mas, neste mundo de melhores e piores, rankings e hierarquias, o que se deveria fazer a um cronista cujo rigor e cuja gramática estão ao nível de qualquer conversa de café?

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