De que é que os alunos gostam?!

Numa das três reportagens que surgem no vídeo, Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, preferiria que os autores escolhidos para integrar os novos programas de Português do Ensino Secundário fossem mais recentes, vedando à maioria dos jovens o acesso a vozes de outros tempos e de outras culturas, como se o Outro devesse ser ignorado e como se educar não devesse implicar, tantas vezes, o desconforto da diferença.

Logo a seguir, e de modo coerente, mostra preocupação com a probabilidade de os novos conteúdos poderem levar os alunos a não gostarem da disciplina de Português, o que me parece digno de algumas reflexões.

A nossa biografia está, com certeza, carregada de momentos em que fomos contrariados, como, por exemplo, a fase em que fomos violentamente obrigados a largar as fraldas e a controlar os esfíncteres, quando seria muito mais fácil usufruir do conforto das fraldas. E que dizer da sopa toda que fomos obrigados a comer, com os chocolates estrategicamente colocados fora do nosso alcance ou mesmo fora da nossa casa? Com que direito é que houve pais que negaram aos filhos o direito a partir porcelanas, se essa era a sua vontade?

Se Edviges Ferreira fosse presidente da Associação de Professores de História, iria defender que se estudasse apenas a História de Portugal dos últimos cinco anos, dez no máximo? Na realidade, que interesse pode haver em saber que existiu um certo Júlio César ou que houve uma revolução qualquer em França, nos finais do século XVIII?

A que propósito é que a educação dos jovens deve estar, maioritariamente sujeita aos gostos imediatos dos alunos? Com 14 anos, não havia nada de que mais gostasse do que jogar futebol. Ainda assim, fui obrigado a ir às aulas e a estudar, forçado a deixar a bola na despensa, à espera do tempo livre que a escola me deixasse. Deverei eu processar os meus pais e as minhas escolas por me terem obrigado a estudar a Matemática que continuo a odiar ou deverei agradecer-lhes por me terem imposto o estudo de uma matéria que foi fundamental para o meu desenvolvimento cognitivo e não só, independentemente do meu gosto pessoal?

No que respeita ao estudo dos clássicos da Literatura, a questão que se deve colocar é, em primeiro lugar, se é ou não benéfico para os jovens. Se se decidir que é prejudicial, deve ser pura e simplesmente banido do sistema de ensino, mesmo que haja alunos que gostem. Se se verificar que traz benefícios, deve ser imposto. Dependendo dos professores ou de outras circunstâncias, alguns alunos poderão vir a gostar de todos os clássicos ou de alguns e outros odiarão, para sempre, cada uma das horas que foram obrigados a passar com os olhos postos no Padre António Vieira. Nada de novo, no mundo da Educação, em que, na realidade, há muito pouco para inventar.

Uma última precaução: este texto critica uma posição extremista e é, portanto, natural, que pareça ele mesmo extremista. Alguns poderão afirmar que desprezo, em absoluto, os gostos e as preferências dos alunos. Não é verdade. Limito-me a afirmar que há campos em que esses gostos e essas preferências são irrelevantes. Nada mais simples.

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9 respostas a De que é que os alunos gostam?!

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  4. Catarina diz:

    Não. O «programa» em vigor limita o estudo de texto literário a meia dúzia de obras e gasta metade da sua extensão com cartas, regulamentos, reportagens, anúncios e a negregada TLEBS. A sugestão que fiz foi a de acrescentar algumas obras às propostas no futuro programa – sempre em alternativa. O facto de duas dessas obras já estarem no actual e péssimo programa, não faz de mim apreciadora do dito programa.

  5. inez gonçalves marques diz:

    Totalmente de acordo!
    abraço!

  6. Catarina diz:

    Óptimo post. O novo programa de português que está em consulta pública é muito melhor do que a mistela que passa por programa actualmente. Por muito que me custe admiti-lo – todos temos os nossos extremismos – este ME conseguiu fazer ou mandar fazer uma coisa bem feita. Eu apenas alargaria um pouco mais o leque de escolha relativamente a alguns autores – mais uma ou duas peças de Gil Vicente para escolher, mais um ou dois Camilos em alternativa ao Amor de Perdição, manteria a possibilidade de escolher o Memorial do Convento ao lado dos outros dois Saramagos propostos bem como a possibilidade de ler e analisar Felizmente há luar! em alternativa à peça proposta.

    • Carlos Plágio diz:

      Ou seja, em última instância manteria o programa em vigor, a tal “mistela”…

      • Catarina diz:

        Não. Nem sei onde foi buscar semelhante ideia, mas elogio-lhe a criatividade interpretativa.

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