Associação de Professores de Português: alergia aos clássicos

Edviges Ferreira é presidente da Associação de Professores de Português (APP), uma sociedade secreta no que toca à divulgação do número de associados, dado importante para se aquilatar da representatividade da dita associação. Esta questão tem também importância jornalística, porque pode validar ou não um título como “Professores de Português alertam para programa extenso e “pouco profícuo””. Já não é, aliás, a primeira vez que me sinto desconfortável por me ver incluído num grupo a que não quero pertencer.

Ainda assim, Edviges Ferreira tem todo o direito a pronunciar-se sobre as questões relacionadas com o ensino do português, direito que lhe é garantido, no mínimo, como cidadã e como professora da área.

Relativamente à proposta ministerial para os novos programas de Português do Secundário, mostrou-se desagradada pelo facto de a APP não ter sido previamente consultada.

Devo dizer que, ao contrário do que é habitual, concordo com uma afirmação de Edviges Ferreira: “Nós não somos executores, somos professores.” É, aliás, norteado por essa concepção que, mesmo cumprindo os meus deveres de funcionário, não deixo de pensar pela minha cabeça, o que me tem levado a criticar a ausência dos clássicos da literatura no ensino do português, o que inclui o esquecimento a que foi votada a literatura medieval. É essa mesma faceta de professor que me leva a rejeitar a imposição de um acordo ortográfico (AO) inútil e pernicioso ou de uma terminologia linguística mal-amanhada.

Curiosamente, face ao AO, por exemplo, Edviges Ferreira parece prescindir da sua recente faceta contestatária, preconizando uma obediência acéfala, quando lembra que há uma portaria que obriga os professores a usá-lo, como bons executores que, afinal, deveriam ser. De qualquer modo, sabe-se que há uma relação muito especial entre a APP e o AO.

Edviges Ferreira, ou seja, a APP, considera, apesar de ainda não ter lido a proposta ministerial, que o programa é extenso e pouco profícuo e que “retrocede há 20 anos atrás” [sic]. Há cerca de um ano, perante a hipótese de a obra de Camilo poder reentrar no currículo de Português, Edviges Ferreira declarou: “Não me chocaria que voltasse a aparecer nos currículos, embora eu ache que há escritores mais actuais.”

O enriquecimento pessoal e cultural dos alunos sujeitos a um contacto com um corpus representativo da literatura de um país é mais do que evidente e constitui uma necessidade social. A proposta ministerial, apesar de feita com o atabalhoamento do costume, é um momento positivo (quiçá o único), o momento que torna possível o regresso a uma estrutura curricular que nunca deveria ter sido abandonada.

Não há aqui sombra de elitismo: a escola deve servir para levar, o mais possível, todos os alunos a contactar com as grandes conquistas da humanidade. Entre elas, está, com certeza, a literatura, a arte que, entre muitas outras virtualidades, melhora o uso da língua e que contribui, por exemplo, para a maleabilidade cerebral necessária a qualquer cidadão deste mundo globalizado. Quem tiver do ensino do português uma visão cujo horizonte se limite ao “mercado de trabalho” ou à prática dos “textos utilitários” pode e deve inscrever-se na Associação de Professores de Português.

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6 respostas a Associação de Professores de Português: alergia aos clássicos

  1. Pingback: Programas de Português nos Cursos Profissionais: o que é um ano lectivo? – Aventar

  2. Lara Reis diz:

    Como professora senti-me perplexa ao ter deparado, de modo fortuito, com um texto redutor e dicotómico vindo de um par profissional (pareceu-me). Faço um levantamento sumário de algumas afirmações que, partindo de um colega de uma disciplina na qual é fundamental saber ler e saber interpretar, me conduzem a algumas observações:
    1- O declarado “desconforto” do autor do post com títulos de jornais – todos sabemos (e os sucessivos programas levam à abordagem de textos jornalísticos) que a escolha de um título é da exclusiva responsabilidade do jornalista – uma afirmação com o intuito de esbater mal estar que alega;
    2- A expressão “obediência acéfala”, quando se refere ao AO – quem se encontra documentado relativamente ao mesmo encontra-lhe, decerto, discrepâncias (é certo que também há quem opine e apresente exemplos inexistentes…). Por outro lado, há uma ética profissional que leva a colocar a questão “como será quando os alunos forem penalizados por não o utilizarem?”; “qual a lógica de consultarmos o Diário da República e trabalharmos com manuais que lhe obedecem e ensinarmos ortografias diversas?”;
    Outras afirmações feitas no post sobre peças jornalísticas que também consultei, deixaram a surpresa de terem sido as mesmas desarticuladas do contexto, já que leccionar a disciplina é também tomar o texto como uma unidade e não interpretar segmentos como se fossem um todo, esvaziando-os do sentido principal.
    Desconheço o número de sócios de qualquer associação (seja ela ou não de professores), do mesmo modo que não tenho conhecimento do número de comentadores de cada blogue se bem que, no mundo virtual, estas coisas se processem com maior opacidade.

  3. Carlos Plágio diz:

    Cheguei por acaso ao seu blogue e, na qualidade de professor de português, tenho a dizer-lhe que o seu artigo, ainda que marque uma (válida e digna) posição pessoal, não corresponde às opiniões de que tenho tido conhecimento acerca desta nova proposta de programa para o Português do secundário. Creio que também padece de algumas alergias… Quanto aos clássicos, sei que qualquer bom profissional defende a sua inclusão nos programas. Contudo, se dedicou algum tempo a analisar seriamente o documento que agora entrou em período de discussão pública, terá de concordar que há clássicos mais e menos obrigatórios e que, no caso de algumas obras propostas, a sua abordagem acaba por ser redundante, face a outras contempladas.E o que é efetivamente grave é a quantidade de obras (ainda que segmentadas, nalguns casos) proposta para a tal “educação literária”, a que se aliam os conteúdos de leitura e oralidade (compreensão e expressão) que, como deve ter percebido, não se coadunam com as leituras literárias (como claramente se afirma no texto dos autores da proposta). Para além de todos os autores e textos literários, há que contemplar os géneros jornalísticos, alguns transaccionais e tipologias de escrita. E falamos de dois blocos semanais de 90 minutos, salvo no 12.º ano, se tudo se mantiver como está. Nestes moldes, tal como proposto, penso que não será de todo errado afirmar que o programa não é exequível de uma forma rigorosa e cuidada, como é o desejo todos os professores. Por outro lado, também me parece que confunde a sua defesa do novo programa com a apologia da disciplina de literatura; é disso que se trata: estamos perante um programa para essa disciplina, que se sobrepõe mesmo ao vigente atualmente.

    • Carlos Plágio diz:

      Veja, sobretudo, o caso do 10.º ano. As propostas do novo programa de Português coincidem com as conteúdos já abordados em Literatura. Será o fim desta disciplina? Ou antevê-se um novo programa para ela, como seria lógico? Aceito os argumentos associados à necessidade de levar os alunos a contactarem com o património literário nacional, mas defendo a separação em duas disciplinas obrigatórias e anuais da atual disciplina de Português: a prática com a língua, a partir de textos mais próximos dos alunos, temática e cronologicamente, e uma abordagem do literário na sua especificidade, em aulas de literatura destinadas à fruição estética mais do que à escalpelização gramatical e aos treinos “dos orais”. São opiniões.

  4. Camilo REENTRAR nos programas? Espanta-me que algum dia deles tivesse saído. Afinal de contas, Portugal não é o Brasil, onde clássicos como Luís de Camões são, para todos os efeitos, inexistentes, e nos exames de admissão ás universidades é mais provável que se façam perguntas sobre letras de músicas populares do que sobre Machado de Assis ou Manuel Bandeira.

  5. joshua diz:

    Meu caro, meu caro!, tu aqui, quando te bates aqui, és a minha perfeita alma gémea intelectual e de causas. Bendito post, tão consolador neste final de dia.

    Sentidos, sinceros parabéns, ab imo cor meum.

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