Para uma greve a sério

SERPENTES E ESCADASEste texto da Raquel Varela deveria fazer parte do manual do perfeito grevista, ainda mais em vésperas da clássica greve de um dia, que serve para que governo e sindicatos possam dedicar-se ao tradicional jogo de tabuleiro “Quantos fizeram greve?”. Aí fica uma citação:

É possível parar um sector-chave – por exemplo, os maquinistas do Metro ou de outro sector – se os outros trabalhadores do país constituírem um fundo de greve colectivo que reverta para quem entra em greve e enfrenta, em nome de todos, o poder patronal. Assim, pára-se de facto o país inteiro e isto sem que os trabalhadores percam o seu salário: cada um iria contribuir muito pouco para um fundo de greve colectivo e, dado que os transportes são um sector-chave, toda a produção ficava questionada. Por exemplo, os enfermeiros podem parar somente num sector hospitalar – o que recebe os doentes no sector informático – e, ao mesmo tempo, fazer um fundo de greve para pagar aos trabalhadores desse sector. Se esta greve pode parar todos os hospitais, e pode realmente, seria sustentável economicamente para todos os enfermeiros. Os professores adoptaram este modelo de greve em Junho passado quando quiseram evitar o aumento do horário de trabalho lectivo.

Há uma pergunta que se pode colocar: se o país ficar parado, o Governo cede ou vai ser o caos? Dito de outra forma: quem tem mais a perder com uma greve assim? Dou-vos a minha opinião: o Governo não aguentaria o país parado uma semana sem ceder. Uma coisa é certa, e esta já todos sabemos: os métodos usados até aqui foram insuficientes.

 

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3 respostas a Para uma greve a sério

  1. joshua diz:

    Para uma citação, citação e meia [não revelo o autor heheheeh]: «É preciso compreender, e de vez, que isto não vai lá com falinhas mansas, nem com políticas de remendos mais ou menos engenhosas. É preciso compreender que o capital financeiro domina hoje inteiramente o mundo, destruindo a sociedade industrial, liquidando o mundo empresarial e esfarelando a articulação nuclear do “social” que se constituiu na segunda metade do século XX, e foi sempre uma relação entre os recursos disponíveis e os valores colectivos adoptados por cada colectividade. É também preciso compreender que nunca como hoje a finança teve tanto poder e tanta influência na economia (global e virtual) e, ao mesmo tempo, um papel tão escasso e tão diminuto na economia real, de que – como bem sabemos – depende o essencial da vida concreta das pessoas. E é ainda preciso compreender, e bem, que nunca a democracia foi um dispositivo tão frágil nas mãos dos que a pensam deter ou dominar. Ela é hoje vítima de uma difusa ilusão de liberdade individual ilimitada, sem freio nem fim, que tem como contraponto constante, não a emancipação – como historicamente aconteceu durante décadas – mas a quase total impotência dos cidadãos e das sociedades, que na verdade foram expropriados do seu poder ou, como diria Spinoza, da sua capacidade de agir. É esta, na realidade, a verdadeira razão porque nada acontece há anos, fora das áreas do protesto mais ou menos pueril e ritual, mais ou menos consolador e inútil, a que temos assistido. Sem projectos colectivos minimamente estruturados, sem ideias credíveis e magnetizadoras, vive-se em plena gelatina opinológica, que foi tomando o lugar das antigas ideologias e expulsando toda a meritocracia para colocar no seu lugar uma vaga ruminação idiotológica. Vivemos assim no fio da navalha – entre a já histórica incompetência do Governo de Passos e as já antológicas piruetas de Portas, entre a pusilanimidade de um suposto Presidente e uma cada vez mais improvável República e – pelo menos até agora, em que finalmente se anuncia para os próximos tempos uma “Convenção” para dar um “novo rumo” a Portugal – uma total e confrangedora ausência de efectiva alternativa de projecto nacional por parte da oposição. Como Manuela Silva lapidarmente disse numa entrevista recente ao jornal Público (27/10/2013), as nossas lideranças têm-se revelado de “uma grande ignorância face ao País real que somos, e com falta de capacidade técnica para operacionalizar reformas.”»

  2. joshua diz:

    É uma utopia quase neoHipie, um sonho Woodstock a meio de uma gripe. Nunca conseguirás parar a Banca, os Aeroportos, os Portos, tudo ao mesmo tempo. Aos gregos também lhes passou isso e pior pela cabeça.

    • António Fernando Nabais diz:

      Já nos resta pouco para além das utopias e dos sonhos a meio da gripe. Ao contrário de ti, e não sendo eu um revoltado militante, característica contrária à minha preguiça estrutural, não acredito no conformismo que há-de render proventos num paraíso metafísico (e lembrei-me disto: https://osdiasdopisco.wordpress.com/2009/01/21/tipo-uma-alegoria-de-mau-gosto-e-um-bocado-sexista-e-verdade/ – vê bem a data, porque é um texto anti-socrático, ou seja, anti-passista). A violência é semente de violência, a violência criminosa legitima a reacção violenta. Qualquer coisa que se faça contra os criminosos que nos estão a agredir é legítima. Ficar parado à espera que o crime se transforme no cisne da virtude é uma ilusão pelo menos tão grande como a minha utopia ou o meu sonho Woodstock. Mal por mal, é bater-lhes com tudo o que houver à mão, ou seja, com uma greve a sério.

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