Acordo Ortográfico: os erros e a as contradições de Evanildo Bechara

Evanildo Bechara é um ilustre linguista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. O currículo que exibe, aos 81 anos de idade, obriga a que as suas palavras sejam escutadas e lidas com atenção e, ao mesmo tempo, torna mais grave qualquer incorrecção que cometa. Na minha opinião, no entanto, não é possível defender o AO90 sem cometer incorrecções.

Nesta entrevista, Bechara refere-se, evidentemente, aos efeitos que o AO tem no Brasil. De qualquer modo, trata-se de um conjunto de declarações que não fica bem no currículo de um especialista tão reconhecido.

Uma das afirmações que faz parte do acordismo mais básico corresponde ao enunciado de que a “língua não pertence apenas aos especialistas ou escritores”. Curiosamente, na mesma entrevista, chega a afirmar que os poucos erros técnicos de divulgação do acordo na comunicação social se devem ao facto de não terem sido feitos por especialistas. Ainda assim, se se aceitar que a língua pertence a todos, por que razão, afinal, deverá a reforma ortográfica estar a cargo dos académicos?

A verdade é que não se pode confundir a vida quotidiana da língua, feita, por exemplo, da aquisição de palavras novas, e decisões sobre a ortografia, que devem ser tomadas por especialistas, com base em argumentos linguísticos. Alguém imagina um matemático defender que devemos simplificar para facilitar o entendimento? A Educação deve servir para levar o máximo de pessoas ao máximo possível do conhecimento. Trair o conhecimento para o tornar mais fácil não é educar.

A tentativa de explicar a supressão do acento em “pára”, ao lado da manutenção de outro acento em “pôr”, é absolutamente canhestra, porque se trata de uma contradição impossível de explicar. Bechara recorre ao contexto como fonte de desambiguação das palavras homógrafas, como se a multiplicação de pares homógrafos não acarretasse, evidentemente, o risco de aumento de ruído na comunicação.

Finalmente, perguntamo-nos como é possível alguém com o currículo de Evanildo Bechara afirmar que o português é “a única língua de cultura do mundo que tem duas ortografias oficiais.” Chega a ser cansativo lembrar que o inglês tem várias ortografias. É curioso, aliás, verificar que, depois do AO90, Portugal e Brasil continuam a ter ortografias diferentes. Se incluirmos os países que não ratificaram, descobre-se que o português tem, agora, pelo menos, três ortografias oficiais.

Evanildo Bechara pertence à mais estranha subespécie de acordista: o acordista especialista. Trata-se de alguém que sabe demasiado para poder defender o AO90.

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