As marcas que Março marcou

Na noite de 16 de Março de 1974, dez minutos depois da uma da manhã, um comboio militar saía do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha. Por alguns minutos, a imensa serpente de veículos militares deixou no ar o cheiro do gasóleo e o rugir dos motores. Para além do frio da noite, a única testemunha do cortejo foi um homem que conduzia um tractor, obrigado a ceder a passagem, e que deu por si a procurar o filho naqueles rostos que a penumbra tornava iguais, o filho cuja morte lhe tinha sido anunciada na semana anterior, vítima de uma emboscada, na província portuguesa de Tete.

No interior de um dos veículos, o soldado Luís Silva não conseguia perceber se era frio, coragem ou medo aquilo que sentia. No meio das pernas, segurava a G3 e olhava para o chão, hipnotizado pelo ronronar do motor e arrastado por uma corrente ininterrupta de ideias. Sabia vagamente que estava a participar num levantamento, num golpe militar, para combater a guerra. Dentro da cabeça, as recordações da infância alternavam com imagens dos vários futuros possíveis em que era herói de uma revolução triunfante ou mártir de uma revolta fracassada.

Cerca de três semanas antes, no dia 24 de Fevereiro, a impetuosidade do capitão Diniz de Almeida tinha-o levado a iniciar um golpe militar que falharia poucas horas depois, uma vez que mais nenhuma unidade tinha saído dos quartéis. A publicação de Portugal e o Futuro do general Spínola tinha sido encarada pelo jovem oficial como um sinal para a revolução. As forças do regime, no entanto, alertadas para as possíveis movimentações subversivas que a publicação do livro poderia suscitar, agiram rapidamente, neutralizando os revoltosos que ficaram, desde então, presos na Trafaria.

Tendo aprendido com os erros, os estrategas da revolução de 16 de Março sabiam agora como estava organizada a defesa. Depois de, ainda na noite de 15 de Março, ter passado na rádio a canção “Tourada”, vencedora do Festival da Canção do ano anterior, as unidades militares que participariam na revolução ficaram preparadas para se dirigirem para os respectivos objectivos. À uma da manhã, quando se ouviu a voz de Zeca Afonso cantando “Estrela d’alva”, a revolução pôs-se em movimento.

O regimento das Caldas iria ocupar o aeroporto e a Rotunda do Relógio, objectivo atingido cerca de duas horas depois de terem saído do quartel, sem resistência à vista. Na realidade, as tropas afectas ao governo estavam ocupadas com aquilo que se passava no interior de Lisboa, o que permitiu aos soldados ocupar tranquilamente as posições que lhes estavam destinadas. Luís Silva estava de pé, mesmo ao lado do relógio, como se estivesse em cima do próprio tempo. À medida que o dia foi passando, as notícias iam trazendo a certeza tranquila da vitória e os soldados foram abandonando a gravidade marcial e começaram a gracejar. A dada altura, o Tondela, um beirão cómico que passava o tempo a maldizer a proximidade da sua terra com Santa Comba, lembrou-se de cobrir os capacetes de todos com margaridas e foi assim que foram fotografados para a posteridade, acabando por dar àquele dia o nome de Revolução das Margaridas.

Ary dos Santos, mal soube das notícias, saiu para a rua, mais impossivelmente exultante que o costume, soltando prosaicos palavrões de júbilo, abraçando amigos e desconhecidos num dia em que só podia haver amigos. Quando o homem deixou o poeta pensar, apercebeu-se, pesaroso, de que o ano e o mês eram péssimos para rimas: “Ora porra! Se isto tivesse sido o ano passado, ainda se poderia falar em vez, em insensatez; se fosse para o ano, setenta e cinco podia rimar com afinco, vá lá. Mas o mês é pior: se fosse Abril até com funil rimava, pá!”

Nesse mesmo dia, nas Caldas, um oleiro foi acometido da inspiração que só uma liberdade recente pode trazer e criou a imagem de um Zé Povinho vestido de militar a fazer um manguito à Ditadura. Uns dias mais tarde, juntou-lhe, evidentemente, umas margaridas, criando, assim, mais uma figura típica da cultura portuguesa. O fervor revolucionário e o ódio ao governo ainda o levaram a criar conjuntos pornográficos em que o Presidente da República e o Presidente do Conselho eram colocados em situações deliciosamente indignas, vítimas de um Zé Soldado brutalmente lúbrico.

O homem que tinha assistido, sentado num tractor, à passagem do comboio militar ouviu, à noite, na rádio, uma palavra cujo significado desconhecia: revolução. Percebeu melhor outras palavras: “fim da Guerra Colonial”. Segurando um copo de vinho triste poisado na mesa, gostaria de ter pensado que, pelo menos, outros rapazes iriam regressar vivos, mas não conseguiu: um filho é mais importante que qualquer solidariedade. Continuando a olhar para o copo, pensou apenas que a História poderia ter sido diferente se os soldados tivessem saído das Caldas um mês antes.

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