Certo e certinho

As respostas que Peter Villax dá, nesta entrevista, são incómodas, tendo a virtude de ser discutíveis, no verdadeiro sentido da palavra (a maior parte das vezes, a expressão “isso é discutível” é só uma maneira de não argumentar, estando transformada num tique da ignorância atrevida). O discutível é, na minha opinião, aquilo que obriga a pensar, categoria cada vez mais ausente de um discurso político marcado por termos como “inevitável” ou expressões como “tem que ser assim”.

Sobre Educação, o homem que irritou Sócrates faz as seguintes afirmações:

 

 

Portugal subiu no ranking da educação…

Temos um país mais ignorante do que há 20 ou 30 anos e o potencial de enriquecimento foi enfraquecido. Eu vejo isto: há 20 anos eu recrutava uma secretária com o 12.º ano, neste momento tenho que a recrutar com uma licenciatura, porque quem me aparece com o 12.º ano, infelizmente, já não está ao nível das necessidades. E isto acontece com várias pessoas que conheço.

Tem seis filhos, com idades entre os 11 e os 26 anos. Isso permite-lhe comparar o ensino português com o estrangeiro. Que comparação faz?

É desfavorável para o ensino português, que privilegia não o raciocínio, mas a resposta correcta. Não há raciocínio livre, não há desenvolvimento de raciocínio. Os exames portugueses de 12.º ano são uma dezena de perguntas, em que cada uma vale “x” pontos. O exame de Baccalauréat francês é uma pergunta, à escolha de três, com quatro horas para responder. E isso é muito mais desafiante para o aluno e para o professor, que vai ter de dar uma nota a um trabalho de seis páginas em que avalia o estudante não pela correcção da resposta, mas pela originalidade, pela capacidade de raciocínio, pela cultura geral, pela capacidade de citar autores…

 

 

É, evidentemente, discutível afirmar que temos um país mais ignorante do que há 20 ou 30 anos, mas a verdade é que a massificação do ensino aliada ao laxismo e à preocupação com as estatísticas tem contribuído para que estejamos, em média, demasiado longe do patamar em que deveríamos estar, ao fim de 37 anos de Democracia e de 25 anos de integração na Europa.

Não conheço o exame de Baccalauréat, mas a descrição feita por Villax mostra uma prova muito mais estimulante do que aquilo a que os alunos portugueses são sujeitos, contrariando a tendência actual para introduzir, em exames de Português de 12º, perguntas de escolha múltipla, um verdadeiro insulto à inteligência e uma desvalorização da criatividade, do raciocínio e da capacidade de expressão (que nunca poderá estar desligada da de compreensão).

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