Vidrinho de cheiro

A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.

A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.

Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem.

Quando foi obrigada a pensar numa opção profissional, escolheu uma actividade que lhe permitisse estar sozinha, saindo de casa o mínimo possível, contactando presencialmente com pessoas menos que o mínimo possível, se possível. Optou por se dedicar à tradução e revisão de texto, continuando fechada no mesmo quarto de sempre, sempre escondida do horror olfactivo com que o resto da humanidade a atingia, usando o computador para receber e enviar a maioria do material de trabalho.

Como seria de esperar, este problema vedava-lhe qualquer possibilidade de ter uma relação que implicasse proximidade física. Através da internet, ainda procurou a ilusão de uma espécie de amor com a vantagem dos corpos distantes. Um desses contactos virtuais quis conhecê-la pessoalmente e, sabedor da disfunção de A., garantiu que tinha uma solução que lhes permitiria ficarem juntos. A esperança, mais do que as palavras, tem asas e A. quis acreditar no que já desconfiava ser impossível. Quando se dirigiu para a porta de casa, no dia combinado, tremia, antecipando uma desilusão, devido ao estranho cheiro que já adivinhava à distância. Não conseguiu, no entanto, adivinhar a surpresa. Abriu a porta e deparou com um homem completamente embriagado, não tanto de amor, mas sobretudo devido ao frasco de perfume que tinha engolido. Apesar do esforço generoso daquele homem tão abnegado, a mistura do perfume com os restantes humores era de tal modo abjecto que A. teve de fugir para dentro de casa, enquanto o triste pretendente perdia os sentidos.

Depois deste episódio, A. fechou-se ainda mais, refugiou-se completamente no trabalho, fugindo, até, dos contactos virtuais. Num certo dia, um desses dias que só podem existir na realidade, de tão improváveis que são, a campainha da porta tocou. Nenhum dos pais estava em casa. Seria, provavelmente, o carteiro que, de vez em quando, entregava alguns dos poucos trabalhos que não lhe chegavam por correio electrónico. A. levantou-se, preparada para receber a encomenda o mais rapidamente possível. Estranhamente, à medida que caminhava, deu por si a estranhar algo que não conseguia definir. Também estranhamente, abriu a porta sem a pressa desesperada com que costumava fazê-lo, nas poucas ocasiões em que fora obrigada a isso. Ali estava o carteiro, um homem sorridente e impossível: sem cheiro. A mulher olhou-o brevemente e fechou os olhos para confirmar que tinha à sua frente o homem ideal.

Passados poucos dias, continuavam nos braços um do outro. Ainda maravilhado por ter, finalmente, batido à porta certa, perguntou:

– Achas que isto vai resultar?

A. teve a certeza disso e confirmou:

– Não me cheira.

[Texto inserido na Exposição “Cinco Sentidos” – Escola Secundária José Régio, Vila do Conde. Fotografias de José Pedro Martins]

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