Com muito tacto

C. nasceu de parto normal, chorou como choram todos os bebés, mamou como é costume e deu aos pais o número habitual e suficiente de más noites, sem as quais qualquer bebé se torna uma inverosimilhança de forma humana.

Passado pouco mais de um ano, a criança continuava com as mesmas virtudes e defeitos de todas as crianças cuja história é tão normal para os outros como extraordinária para os pais. Um dos vícios que tinha adquirido era o de dormir sempre com um urso de peluche que começava a ficar gasto. Numa noite trágica, o boneco desapareceu, obrigando os pais a espreitar debaixo de todos os armários, pressionados pelo choro enraivecido da criança revoltada contra um mundo que se mostrava tão injusto e incompreensível. O urso não apareceu e C. acabou por adormecer, soluçando desconsolado.

A meio da noite, os pais resolveram espreitá-lo e, espantados, viram nas mãos do filho o peluche. A mãe teve a estranha sensação de que o boneco estava como novo, mas o sono e a resolução, ainda que improvável, de um problema desviaram-lhe a atenção de pormenores que perdiam toda a importância face ao sorriso sossegado do belo adormecido.

Os episódios de reaparecimento de objectos desaparecidos começaram a tornar-se recorrentes e levaram os pais a montar vigia numa noite em que resolveram esconder a chupeta. Esperaram que o filho adormecesse e entraram no quarto. Na cama, C. fechou os olhos, levantou uma mão e fechou-a como se agarrasse numa chupeta que, por milagre, reapareceu e que, logo a seguir, colocou na boca. No dia seguinte, compararam as duas chupetas e verificaram que a mais recente não tinha indicação do país em que fora fabricada.

Os pais nunca chegaram a perceber o que tinha o filho. Ainda tentaram consultar um médico que mal conseguiu suster um riso abafado, apesar do esforço por manter uma atitude profissional, e que se limitou a aconselhar os pais a buscar aconselhamento psiquiátrico. C. possuía, então, a capacidade de imaginar sensações tácteis tão fortes que conseguia criar tudo aquilo que desejava, o que lhe conferia um poder preocupante. O facto de não ser exibicionista e o conselho suave dos pais levou a que só muito raramente utilizasse o poder fora de casa, como no dia em que partiu a cabeça ao brutamontes da escola usando uma clava que não tinha nas mãos poucos segundos antes, após ter visto o seu melhor amigo a ser empurrado.

Com este poder, havia o risco de acumular inutilidades, o que não acontecia, pois todas as coisas se volatilizavam, quando deixavam de ser necessárias. O maior problema surgiu quando passou da produção de objectos à criação de seres vivos. Devido à adoração que tinha por animais, contrariou os pais e fez aparecer dois cães, três gatos e um tigre da Sibéria já adulto que obrigou à mobilização de uma equipa de especialistas e implicou o pagamento de uma multa ditada por um juiz irritadíssimo com aquele casal de sonsos que declarava não saber como é que um exemplar do maior felino existente tinha aparecido lá em casa.

O problema que se levantou a seguir foi o da descoberta do corpo feminino graças a certas revistas proibidas que alguns amigos lhe haviam emprestado. O entusiasmo adolescente foi tal que os pais, uma certa tarde, chegaram a casa ainda antes de várias mulheres em roupas mínimas e menores se volatilizarem. C. foi sujeito a uma repreensão severíssima, mais por parte da mãe, com ardor sincero, do que do pai, que se esforçava por parecer indignado ao mesmo tempo que tentava esconder de si próprio alguma mágoa por não ter usufruído mais tempo de todas aquelas visões carnais.

As revistas foram apreendidas e C. foi obrigado a dedicar-se à leitura de livros, numa tentativa de limitar a imaginação. Num desses livros, leu a história de uma rapariga linda e dulcíssima que tinha perdido a memória, o que não a impedia de se sentir a carícia terna de umas mãos que pertenciam a alguém de cujo toque se lembrava. Nesse momento, C. poisou o livro e a rapariga materializou-se nos seus dedos. Ficaram a olhar um para o outro e reconheceram-se. Se é certo que ela tinha deixado o passado todo guardado num livro, a verdade é que tinha o futuro nas mãos daquele rapaz.

 

[Texto inserido na Exposição “Cinco Sentidos” – Escola Secundária José Régio, Vila do Conde. Fotografias de José Pedro Martins]

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