Mas isto é muito, pouco ou nada?

 

Funcionários do Estado ganham mais 500 euros que a média nacional

O i fez umas contas, provavelmente bem feitas, e publicou-as em forma de notícia. Fez bem. E faria igualmente bem se os funcionários públicos ganhassem ainda mais ou se ganhassem muito menos.

Como leitor, não posso, no entanto, deixar de exprimir algumas considerações sobre o texto das amáveis jornalistas.

Começando pelo título, é preciso dizer que o título é um bom título, sobretudo num país em que os funcionários públicos constituem um grupo visto, habitualmente, como parasitário e inútil. Basta ver alguns comentários da notícia para reencontrar os revoltados que clamam que os seus impostos são desperdiçados nesse clube de sanguessugas que vive abocanhando o seio do Estado.

No primeiro parágrafo, caso não soubéssemos, ficamos a saber que ter “mais ou menos 500 euros todos os meses na conta bancária faz toda a diferença para a maioria das famílias.” É certo que este jornal foi concebido a pensar nas classes altas, mas, mesmo aí, com a substituição do tremoço pelo canapé e com as unhas livres da sujidade proletária , haverá sempre quem se revolte com este roubo de 500 euros que podiam fazer tanto jeito a quem, efectivamente, os merecesse.

Curiosamente, há, na função pública, pessoas que ganham o ordenado mínimo e que, por não terem o hábito de ler o i, ficarão sem saber que contribuem para uma média que é superior ao que ganham mensalmente, mas isso, para muitos, só será sinal de que a justiça, afinal, não anda vendada e que há funcionários do Estado que ganham o mínimo possível, que é sempre mais do que merecem.

Depois, temos estas comparações inocentes: “Os encargos anuais com os recursos humanos, contudo, ultrapassam os 2,75 mil milhões de euros. É essa a despesa anual do Estado com salários, subsídios, prémios, abonos ou suplementos – e que equivale, por exemplo, aos lucros que a cadeia IKEA obteve o ano passado com as vendas em todo o mundo ou aos prejuízos que a aviação mundial estima vir a ter este ano com a subida do preço do petróleo.” O que pensarão todos aqueles que se sentem diariamente assaltados por esses vermes que, todos juntos, ganham mais do que o IKEA?

O i pode e deve publicar o que lhe apetecer, como é evidente, e até lhe fica bem tentar ser o herdeiro da irreverência do falecido Independente, mas não seria possível conciliar isso com menos sensacionalismo e um bocado mais de jornalismo? É que, face, a esta reportagem, há duas perguntas que deveriam ser feitas: há funcionários públicos a mais? Os funcionários públicos ganham mais do que deviam?

Para além disso, uma reportagem interessante consistiria em investigar que cargos sustentados pelo erário público são inúteis, redundantes ou resultantes do compadrio centralista e do caciquismo autárquico. Só que isso exigiria aos jornalistas que trabalhassem. O problema é que os jornalistas, às vezes, até parecem funcionários públicos.

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3 respostas a Mas isto é muito, pouco ou nada?

  1. Pingback: Ainda e sempre os privilégios dos funcionários públicos – Aventar

  2. Ó cara colega, eu sou funcionário público, estou sempre de férias!

  3. Fátima diz:

    Soberbo!
    Então a última frase…. de mestre, como só tu!
    Boas férias?!? Enfim…

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