Português: resultados dos exames de 12º

Apesar da minha condição de membro da trupe das Letras, devo dizer que, ao longo da minha carreira docente, a maior parte dos alunos intelectualmente mais estimulados e mais estimulantes que tenho encontrado, em Português, está nas áreas das Ciências. A escolha das Humanidades, no 10º ano, esteve e está, demasiadas vezes, associada a uma fuga à Matemática e não a uma verdadeira vocação humanística. É por isso que não consigo perceber as razões apontadas por Edviges Antunes Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, quando afirma que os fracos resultados do exame de Português de 12º se devem ao facto de a maioria dos alunos estar no ramo científico.

Também não se percebe que interferência pode ter a não realização de testes intermédios, algo que já aconteceu em anos anteriores, sem que se verificassem os resultados deste ano.

Ainda relativamente às declarações da presidente da APP, já faz mais sentido a referência à alteração introduzida no Grupo II (as questões do subgrupo 2). Aqui, estamos perante uma novidade absoluta em comparação com todos os exames desde 2006, criando mais um factor de instabilidade, onde deveria existir permanência, não só para que os professores possam preparar melhor os alunos, mas também para que os exames sejam, efectivamente, comparáveis.

Edviges Ferreira faz, ainda, alusão às dificuldades levantadas pelo poema de Álvaro de Campos, o que, sendo verdade, não é, por si só, razão, suficiente.

Na minha opinião, há, ainda, um factor que poderá ter contribuído para os resultados: muitos alunos terão fugido ao tema no Grupo III. Na realidade, quando lhes era pedido que escrevessem sobre a importância da Literatura, muitos dedicaram uma resposta à importância da leitura, o que poderá ter levado a que textos bem escritos tenham obtido, justamente, uma cotação de zero pontos.

É fundamental que estes resultados sejam estudados e que se tirem e se publiquem verdadeiras conclusões. Seria importante, no entanto, que esse estudo se debruçasse, também, sobre a possibilidade de haver deficiências no enunciado (e não só aqui, como tentei demonstrar), para além de problemas colocados por uma obsessão pseudo-científica de controlar ao pormenor os classificadores, impingindo-lhes critérios e descritores muitas vezes desajustados. Como questão paralela, não se revelou suficientemente frutuosa a substituição das reuniões de aferição de critérios por acções de formação, que, sendo úteis, não são suficientes, ainda mais se tivermos em conta que nem todos os classificadores puderam frequentá-las.

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3 respostas a Português: resultados dos exames de 12º

  1. José António diz:

    É de constar que a justificaçao oferecida e absurda! Os alunos de ciencias sao preparados da mesma forma que os de todos os outros cursos! Os resultados sao de culpa maioritaria dos critérios e dos metodos de ensino. Portugues, esta a no auge do estado de pseudociencia referido pelo Antonio, dado a que a maioria dos alunos, embora intrepretem optimamente o texto, falham os topicos a avaliar por pequenas imprecisões de palavras. Isto chega ao ponto da ridicularizaçao deste sistema dado a que nao avalia absolutamente nada do que seria esperado da disciplina. A muitos dos melhores escritores jovens sao atribuidas menções absolutamente descontextualizadas por pequenas divergencias na interpretaçao (que muitas vezes levam a que esta esteja mais correcta ate que a apresentada nos criterios de classificaçao) e pelo uso de neologismos, mesmo que bem formados.
    Assim tal exame chega ao ponto de nao avaliar nem a criatividade, nem a capacidade de bem escrever e dominar a lingua portuguesa e os seus aspectos gramáticos. Avalia apenas a capacidade de um aluno de decorar tópicos da materia tratada anteriormente e referi-los quando perguntado.

    • Pedro Coutinho diz:

      Inteiramente de acordo. Chega a ser incompreensível e, por isso, não vejo qual a razão fundamental para o sustento desta disciplina. Não compreendo que seja de elevada necessidade o seu cumprimento no secundário, principalmente no 12º ano. Por demais imposições inflexíveis, torna-se até contraditória à verdadeira utilidade da disciplina, visto que concede um restrito proveito individual a cada aluno, quanto à sua matéria, e portanto é olhada como um desinteressante obstáculo a ultrapassar por grande parte dos aprendizes. Aprendizes esses que se tornam um pouco como precisados, submetendo-se a normas supérfluas. Enfim…!

  2. carmo diz:

    Ainda estou incrédula com estes resultados( e com as explicações para os mesmos)!É histórico ter resultados nos exames de Português com uma média inferior aos de Matemática!!!As explicações são muito simplistas e só quando houver estudos que comprovem que são os alunos de Ciências que estão “pior preparados” para realizarem interpretações de textos que não conhecem, eu tenho a minha própria explicação, partilhada por vários correctores: estes “cortes” na educação sob a forma de “trocas de emails” em vez de reuniões com os correctores, já estão a causar estragos e estes refletem-se nos alunos…

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