Importa-se de repetir?

 

N. tinha um peculiar problema de audição: só ouvia os elogios, os cumprimentos e as expressões neutras. As palavras insultuosas ou as críticas transformavam-se em sons inarticulados e uma expressão como “grande besta”, por exemplo, soava-lhe invariavelmente como “svlevio”. Apenas o facto de ser extremamente corpulento lhe valeu manter-se a salvo de agressões físicas, nas muitas ocasiões em que caminhava em direcção aos que o insultavam pedindo-lhes, sorridente, que repetissem, por favor, que não tinha percebido. Onde estava apenas um cândido surdo, os interlocutores viam um homem dotado de uma coragem tão calma que só podia ser perigoso e, intimidados, afastavam-se para desgosto de N. que ficava sempre frustrado por, mais uma vez, não ter percebido o que diziam. Para outros, não passava de um homem irritante, de uma agressividade contida. Esta sua característica tornava-o, ainda, insensível à ironia, sendo, portanto, usual, responder um sincero “Muito obrigado, é muito amável!” a alguém que lhe arremessasse um ácido “És muito esperto, és!”.

Os pais tinham frequentado psicólogos, psiquiatras e bruxas importadas, até que perceberam que era um problema irresolúvel. O facto de ser naturalmente obediente permitiu, apesar de tudo, que fosse possível educá-lo, bastando, para tal, elogiá-lo sempre que fazia alguma coisa bem ou garantindo que iria ser elogiado se o fizesse. Aprenderam, então, a dizer frases como “O meu menino tão lindo não pode comer mais bolachas, está bem?” ou “O bebé é muito mais fofo se não bater com esse pau grande nesse jarrão chinês caríssimo!”

Viria a casar-se com uma mulher que mais ninguém suportava, exactamente porque não conseguia ouvir todas as coisas desagradáveis que a personalidade belicosa da esposa odienta a obrigava a dizer todos os dias. Ao fim de alguns anos, a pobre senhora desistiu do direito a ter sequer uma pequena discussão com o marido e passou por momentos de grande depressão, em que chorava de barriga para baixo abafando insultos lacrimosos, sempre consolada pelo marido extremoso, o que ainda a deprimia mais.

Na escola, tal atitude tornou-o, por vezes, incompreendido pelos professores, que o expulsaram das aulas, quando o mandavam calar, usando palavras desagradáveis que não conseguia ouvir. A imagem que criou de si era tão positiva que as pessoas chegavam a confundir com imodéstia aquilo que não era mais do que segurança.

Ganhou, então, gosto pela política. Fez o percurso habitual das juventudes partidárias, onde a sua bonomia o tornou um oponente desesperante. Foi com uma rapidez extraordinária que chegou a primeiro-ministro. O que fez ganhar os favores dos votantes foi, exactamente, uma atitude positiva perante tudo, ao mesmo tempo que parecia mostrar um desprezo tanto mais absoluto quanto mais ferozes eram as críticas.

Talvez a História não venha a conservar dele, a imagem de um homem competente, mas nunca a Assembleia ouviu tantas vezes um político reagir às críticas, inclinando ligeiramente o corpo para a frente, sempre com a mesma pergunta:

– O senhor deputado importa-se de repetir? Não percebi o que disse.

[Texto inserido na Exposição “Cinco Sentidos” – Escola Secundária José Régio, Vila do Conde. Fotografias de José Pedro Martins]

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