Com muito gosto

M. vivia para saborear e quase se poderia dizer que vivia porque saboreava. Considerava que saborear era o espírito, a humanidade, ao passo que comer não era mais do que o animal que somos obrigados a sustentar. A gastronomia era, para ele, um dos momentos supremos em que a natureza se transformava em humanidade.

A sua memória era gustativa, estava alojada no palato. Já em pequeno, vivia concentrado no paladar, a ponto de comer de olhos fechados, para que a visão não o alimentasse de enganadoras ilusões gustativas. Durante a infância, viveu na cozinha, provando as iguarias confeccionadas pela avó e pela mãe. Já então, tinha um gosto tão apurado que lhe cabia a ele decidir se a comida estava boa de sal ou se o açúcar era suficiente. Tinha aquilo que se poderia chamar o paladar absoluto. As suas recordações mais gratificantes estavam ligadas a comida e das viagens lembrava-se, sobretudo, dos restaurantes.

Na adolescência, aprofundou a obsessão pelo mundo dos sabores: enquanto os colegas se deleitavam com revistas eróticas, M. tinha delírios com a Teleculinária, para além de devorar livros de Maria de Lurdes Modesto. Ao mesmo tempo, a inesperada morte da avó levou-o a querer aprender a cozinhar, aproveitando o magistério da mãe, de modo a permitir-lhe manter os sabores da infância que não queria perder, quando ficasse sozinho.

Em pouco tempo, a sua aguda sensibilidade gustativa fez dele um cozinheiro competentíssimo, conseguindo antecipar perfeitamente os sabores dos pratos ainda antes de terminada a confecção. Quando familiares e amigos já acreditavam que viria a ser cozinheiro, explicou que esse não seria o seu caminho, porque não queria que o universo dos seus sabores ficasse limitado àquilo que cozinhava. Procurou, então, encontrar uma actividade que lhe permitisse alargar os horizontes do gosto e decidiu que o melhor caminho seria o de ser crítico gastronómico.

Ciente de que tinha escolhido um caminho estreito, em que a oferta era diminuta, percebeu que tinha de ser paciente. Assim, começou por seguir História, aproveitando todas as ocasiões para escrever trabalhos sobre alimentação. No final da licenciatura, frequentou um Mestrado, tendo-se distinguido com uma tese sobre os livros de receitas setecentistas. A defesa da sua tese constituiu um espectáculo inusitado, uma vez que não só escreveu um estudo completíssimo, como confeccionou vários pratos que exemplificavam, na perfeição, tudo o que afirmava. Entretanto, tinha frequentado cursos de cozinha, provas de vinhos, encontros de história da alimentação, feiras gastronómicas, tornando-se conhecido, graças à capacidade com que adivinhava ingredientes de pratos e anos de colheitas.

Começou a colaborar com vários jornais e revistas, para além de escrever frequentemente livros sobre comida e culinária, passando a viver confortavelmente e feliz à custa do seu dom, tornando-se um frequentador habitual dos melhores restaurantes do mundo. A sua casa tinha-se tornado, entretanto, um centro de documentação sobre comida e vinhos e a cozinha estava completamente apetrechada para, a qualquer momento, poder produzir os sabores que imaginava.

Todas as noites, sonhava com comida. Durante o sono, deliciava-se com refeições completas, incluindo vinhos e cafés aromáticos, sobremesas intermináveis, com direito a apresentação de conta, felizmente pagável com um cartão de crédito feito da mesma matéria dos sonhos. Havia noites em que comia tanto a sonhar que acordava mais gordo, podendo quase dizer-se que, no seu caso, dormir era o dobro de meio sustento.

Como tantas vezes acontece, é nos melhores momentos da vida que as tragédias, grandes e pequenas, atacam repentinas. Depois de uma noite em que mergulhara num banquete de sonho, M. acordou em direcção ao pequeno-almoço que precedia o banho matinal. Sentou-se e barrou com manteiga açoriana o pão que cozia em casa. Na primeira dentada, sentiu um choque tão grande que só pôde acreditar depois de insistir: o mesmo pão de sempre com a manteiga do costume sabia a folhado de carne. Tomado de um pressentimento, provou o leite e sentiu o travo inconfundível do tinto Entre Quintas de 1985. O requeijão sabia agora a leite-creme, os gomos de laranja algarvia eram camarões, o pudim francês tinha-se transformado em camembert. A acuidade dos sabores mantinha-se, mas estavam trocados.

Os primeiros dias passou-os M. mergulhado numa depressão aturdida, até ser obrigado a perceber que a sua vida não acabara, apenas mudara de lugar. Muniu-se, então, de uma colecção de pequenos cadernos onde se dedicou a anotar toda a nova geografia gustativa em que agora vivia. A sua celebridade nos restaurantes manteve-se, por razões diferentes, sendo vulgar ouvi-lo fazer pedidos como:

– Para sobremesa, queria sardinhas assadas com pimentos, se fizer favor.

 

[Texto inserido na Exposição “Cinco Sentidos” – Escola Secundária José Régio, Vila do Conde. Fotografias de José Pedro Martins]

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