Longe da vista

J. possuía uma visão fora do comum que lhe permitia ver pormenores a distâncias só acessíveis a aves de rapina ou a telescópios. Durante a infância, essa capacidade permitira-lhe ocupar o tempo com inutilidades como ler o conteúdo de etiquetas de roupa interior pendurada em estendais nos décimos andares do bairro e fora-lhe útil, várias vezes, porque lhe permitia adivinhar de longe o humor do pai, o que não era coisa de somenos, uma vez que lhe permitia antecipar a escolha do comportamento ideal para cair nas boas graças paternas.

Ao fim de alguns anos, já um adolescente bem-parecido, entretinha-se a contar os pontos negros que via distintamente no nariz dos professores, para delícia dos colegas, sempre deleitados pela humilhação secreta dos adversários docentes. Entretanto, J. começou a aperceber-se de que, de vez em quando, desapareciam raparigas. Um dia, intrigado por um desses desaparecimentos, perguntou a um amigo que era feito de uma certa morena, com um sinal perto do lábio superior. A resposta veio acompanhada de um esgar de incompreensão:

– Estás a gozar? Está ali, como sempre, sentada na segunda fila. E sempre a olhar para ti, por acaso! Deves estar a precisar de óculos ou o caraças!

J. franziu a cara e semicerrou os olhos. O lugar habitual da rapariga continuava vazio, como já acontecia há vários dias. Encolheu os ombros e resolveu ignorar aquilo que considerou uma brincadeira do colega. Entretanto, no lugar do costume, a pobre rapariga olhava furtivamente para trás, lamentando o facto de ser completamente ignorada por J.

Ao fim de alguns meses, naturalmente, o coração da moça, cicatrizado por tanta desatenção, levou-a a olhar para outro com os mesmos olhos já outros. Nesse dia, J. voltou a vê-la e, sorridente, perguntou-lhe:

– Então, por onde tens andado?

Estupefacta e com a impaciência frontal dos adolescentes, soltou um grito rouco:

– Deita-te cedo, moço!

Entretanto, J. tinha deixado de ver uma outra colega que levava as aulas a suspirar por ele. Depois de perguntar por ela e percebendo que não a via, apesar de lhe garantirem que continuava ali, acabou por se aperceber de que era vítima de uma verdadeira maldição: deixava de conseguir ver qualquer rapariga que se apaixonasse por si. Chegara, aliás, à conclusão de que também havia um rapaz que tinha desaparecido desde o início do ano, sem nunca ter saído da turma.

A partir desse momento, J. teve de aprender a viver com essa estranha dificuldade de visão. Teve várias namoradas invisíveis, o que levou o engraçadinho da turma a recriar um provérbio:

– Quem o invisível ama bonito lhe parece.

O facto de não se poder preocupar com a aparência das namoradas, a partir do momento em que era correspondido, permitia-lhe valorizar mais os aspectos psicológicos. É claro que, por outro lado, esta situação levava-o a dar mais importância ao tacto, porque considerava que ouvir era ver mal.

O principal problema, no entanto, estava na facilidade excessiva com que a invisibilidade das suas amadas o fazia olhar para as outras mulheres e nada o magoou tanto como ouvir, um dia, a voz sofrida da rapariga com quem passeava de mão dada:

– Só tens olhos para as outras…

 

[Texto inserido na Exposição “Cinco Sentidos” – Escola Secundária José Régio, Vila do Conde. Fotografias de José Pedro Martins]

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