Triste

José Triste Luso levara toda a vida a fugir dos apelidos, o que nunca foi fácil, pois os nomes raptam as pessoas e não estão interessados em pedir resgate. O máximo que conseguiu foi ter ganho a alcunha de Tristão, quando teve um surto de crescimento na adolescência, abandonando a insignificância de uma altura mediana para cair numa espalhafatosa descoordenação, como se o cérebro tivesse ficado surpreendido por passar a comandar novos membros que faziam gestos autónomos, fora da vontade melancólica do rapaz. Pelo caminho, foi-se resignando a ouvir trocadilhos fáceis como “És um triste!” ou “És como os garrafões: também dizes Luso.”

José era Triste por parte da mãe e Luso por parte do pai. De ambos herdou uma melancolia conformista, resultado da mesma catequese por onde ambos tinham passado e onde se tinham conhecido. A mesma catequese onde haviam de se conhecer também biblicamente, escondidos num fugaz vão de escada, impossibilitados de se esconderem da ira de Deus, que, certamente por linhas tortas, ajudaria à maculada concepção de um filho, o pequeno José, e à assinatura de um contrato indesejado, o casamento.

Tal matrimónio viria a confirmar o adágio que garante que o que nasce torto tarde ou nunca se endireita. As recriminações mútuas e constantes faziam parte de uma rotina integrada por pais e sogros que nunca desperdiçavam uma oportunidade para fomentar uma discussão que voltava sempre àquele momento em que a menina Triste (“uma desavergonhada”, segundo a sogra) tentara ser feliz com o rapaz Luso (“desavergonhado é este”, resmungava a outra sogra, apontando com o queixo desdenhoso aquela triste espécie de genro). O Natal era, invariavelmente, por proporcionar encontros familiares, a época escolhida para cultivar este passatempo, o que fazia de Dezembro o pior dos meses, a ponto de, já adulto, José ficar imediatamente angustiado a partir do momento em que os enfeites natalícios começavam a iluminar as ruas.

A vida do casal Triste Luso era, portanto, uma homenagem diária aos apelidos. A mãe, tristonha, vivia numa melancolia desanimada, intimamente convencida da impossibilidade de ser feliz. Atropelada por uma vaga culpa de que nunca recuperou, embrenhou-se num catolicismo nada cristão, carregado de pequenas maledicências e encontrando consolo apenas na certeza de que havia gente tão infeliz como ela. O marido disfarçava diariamente as frustrações pessoais e profissionais num alcoolismo melancólico e silencioso, remoendo os sonhos de juventude que ficaram por cumprir, rosnando murmúrios inaudíveis contra o país, a religião, descobrindo culpas em tudo o que lhe era alheio.

José era, então, menos um filho do que a materialização de tudo o que tinha impedido os pais de serem felizes, o que lhe valeu raros gestos de afectos, quase sempre mais públicos do que sinceros, e muitas recriminações por faltas que teria cometido vários anos antes de nascer. A convivência com a tristeza materna e o paterno desencanto conduziu-o à intuição de que a felicidade, tal como o seu inverso, estaria numa região desconhecida e talvez distante. Era necessário sair e procurar.

Dando início à sua demanda, abandonou uma Igreja em que os padres cultivam sinistramente o ciciar beirão, amaldiçoando muito mais que bendizendo, e procurou as benesses garantidas por uma outra religião em que os ministros praticavam afincadamente um falso sotaque brasileiro, prometendo prosperidades tão falsas como o sotaque. Durante o mês em que frequentou o templo, a circunstância de integrar uma multidão ululante ainda lhe criou a ilusão de que era feliz, mas rapidamente se apercebeu da artificialidade de cada um dos gestos largos com que respondia mecanicamente aos apelos do pastor.

Depois da igreja com sabor tropical, experimentou, com empenho efémero e já desiludido, livros de auto-ajuda, massagistas profissionais, profissionais massagistas, namoradas imaginárias que o rejeitavam, clubes mais recreativos do que culturais, bebidas fortes na companhia de fracos amigos, aconselhamentos de professores sem licenciatura publicitados em páginas de pequenos anúncios, uma claque de futebol em que aprendeu a culpar o árbitro. Não chegou a experimentar o jogging, porque a temperatura nunca era a adequada, e desistiu do karatê, após ter assistido a um treino, com a desculpa de que alguém poderia aleijar-se.

Como seria de esperar, educado para a infelicidade, saiu cedo da escola, para começar a trabalhar numa oficina automóvel, graças aos ofícios impositivos do avô materno. José chegava a juntar menos dinheiro que felicidade e voltava todos os dias para casa dos pais, que lhe faziam sentir que a cama, a mesa e a roupa lavada eram privilégios imerecidos.

Um dia, ao contrário do costume, resolveu ir directamente de casa para o emprego, sem procurar a desesperada companhia dos que tinha escolhido como amigos e que viam nele apenas um constante alvo de humilhação. Entrou em casa, estranhamente satisfeito por estar sozinho. A casa estava vazia. Pegou na fotografia do casamento dos pais e deu por si a sorrir. Entrou na casa de banho e começou a lavar as mãos. Foi quando se viu no espelho que descobriu onde poderia, verdadeiramente, procurar a felicidade.

Imagem roubada aqui

[Texto publicado no Jornal dos Arcos, Escola Secundária Afonso Sanches, Vila do Conde]

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