Tempos

Há uma piada machista que diz, mais ou menos, o seguinte: se um homem estiver a falar, no meio de uma floresta, sem nenhuma mulher a ouvi-lo será que, mesmo assim, ele continua a não ter razão? Acerca do tempo, e mais filosoficamente, poderá perguntar-se se verdadeiramente existiria se não fosse medido e, sobretudo, percepcionado pelo ser humano.

Mais do que cronológico, o tempo é psicológico: uma hora pode ser fastidiosamente demorada ou demasiado breve. Se continuarmos a qualificar o tempo, podemos falar, por exemplo, num tempo do político e num tempo do historiador.

Em termos ideais, ambos os tempos deveriam ser longos, ainda que em direcções diferentes: o historiador virar-se-ia para o passado, o político para o futuro. Estudar História implica, de preferência, distanciamento, ou seja, tempo suficiente para se poder perceber o melhor possível factos e personagens históricas. Fazer Política deveria implicar o mesmo distanciamento, levando os agentes a saber que deveriam trabalhar generosamente para o médio e para o longo prazo, especialmente em países com problemas de desenvolvimento, como é o caso de Portugal. A Política deveria aprender, com a História, que a vida é curta, mas que o tempo é comprido.

Os ignorantes que nos governam – iguais aos que nos governarão – vivem num tempo curtíssimo, festejando, constantemente, dados estatísticos e estudos, fugindo da prudência para o marketing, numa celebração do efémero.

Há tempos, entre muitos outros disparates proferidos pelos alegados socialistas no poder, Valter Lemos congratulava-se com o facto de que o desemprego estava a crescer menos do que no ano anterior. Os resultados dos testes PISA estão a ser aproveitados pelos apressados do costume para, finalmente, avalizar as políticas educativas desastrosas impostas por Sócrates.

A máquina de relações públicas do Partido Socialista, com o simplismo idiota que a caracteriza, critica os que não se congratulam com os dados revelados, afirmando que se trata de pessoas que não suportam que o País melhore, num recurso típico a frases dirigidas aos afectos, já que o verdadeiro debate lhes é estranho. Como se sabe, o sonho de qualquer professor é ter alunos cada vez piores e isso só será possível se o estado da Educação piorar. Como poderia essa gente festejar tanta melhoria?

Se eu fosse dotado da mesma tendência parola para valorizar o imediato, estaria agora pronto para colher os louros do salto que a minha escola deu no ranking, ainda para mais, tendo em conta que leccionei 12º ano. A minha incómoda honestidade, no entanto, obriga-me a reconhecer que uma das duas turmas era constituída por alunos com características raras no contexto do estabelecimento onde lecciono: interesse pelos estudos e estatuto sociocultural elevado (factores, como se sabe, sempre alheios um ao outro). O mérito pelas notas alcançadas por esse grupo de alunos tem de ser repartido pelos pais e pelos vários professores que tiveram ao longo de doze anos. Isto é História, não política.

Devo, portanto, dizer que os dados do PISA não me deslumbram, até porque serão utilizados para esconder o problema estrutural de subdesenvolvimento educativo que caracteriza, há vários anos, o nosso país. Aceitando, no entanto, a exactidão dos dados, será legítimo afirmar que, com políticas educativas correctas, estaríamos muito acima da média.

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4 respostas a Tempos

  1. Pingback: PISA 2009 vs. GAVE 2010? | Aventar

  2. Isabel Prata diz:

    Não é piada, embora pareça… mas julguei que a neve que escorre pelo texto fosse impressão dos meus olhos e que se devesse a um descolamento de retina ou a qualquer coisa similar. Sendo assim, fico mais descansadinha. Quanto ao resto… que a “incómoda honestidade” de que padeces não abandone as mentes lúcidas e frontais. E, sobretudo, que não se calem. (Que é para ver se ainda vai havendo país…)

    Mais um texto que merece divulgação.

  3. isabel calado diz:

    Gosto. Do que escreve, logo do que pensa, e também da foto de entrada, onde agora cai neve.

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