Recentrar a função docente

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos habituais discursos habitualmente deslumbrados sobre Educação produzidos em ambientes ou universitários ou vendidos ao poder político ou ambos, há duas ideias recorrentes acerca do que deve ser o novo professor: “o professor tem de estar preparado para os novos desafios” e “o professor tem de desempenhar diferentes funções, não pode limitar-se a ser só professor”.

A primeira asserção é recorrentemente proferida pelos iluminados na religião eduquesa e versam habitualmente temas que reputam como absolutamente desconhecidos pelos professores, como o facto de o ensino se ter massificado ou da importância das novas tecnologias como contributo para as aprendizagens dos alunos. Não quero cair no erro de defender o conhecimento do terreno como manifestação da infalibilidade docente, mas há uma grande diferença entre professores que convivem há dez, vinte e trinta anos com mudanças de hábitos e de linguagens e gente cuja única virtude está em ter produzido teses e opiniões sobre Educação no recato dos gabinetes ministeriais e/ou universitários. Se há classe que é obrigada a lidar quotidianamente com a novidade é a dos professores. Se existe classe habituada a perceber que o mundo mudou é a classe docente.

A esta falácia vêm, muitas vezes, associados outros erros como o de que é preciso simplificar o discurso, adaptá-lo às novas gerações, numa defesa eventualmente involuntária da involução intelectual dos alunos, quando, na realidade, estes só serão estimulados se o discurso da escola for diferente do do quotidiano.

A segunda afirmação – a de que “os professores devem estar preparados para desempenhar outras funções” – tem sido cantada por diversas vozes, incluindo muitas que, por distracção ou por tracção, partem do interior da classe docente.

É verdade que a população escolar é completamente diferente da que frequentava as escolas até há trinta anos e é igualmente verdade que isso implica novas abordagens não só na área pedagógica mas também em muitas outras áreas exteriores à especialização dos professores. Repito: áreas exteriores à especialização dos professores.

As políticas economicistas foram no sentido de retirar das escolas funcionários não-docentes, para além de se continuar a insistir na não inclusão de psicólogos e assistentes sociais ou outros especialistas nos vários problemas que possam afectar a actual população escolar. Como se isso não bastasse, os abusos no âmbito dos horários de trabalho fizeram nascer a ideia da escola a tempo inteiro, uma vez que para pais com horários de trabalho tão sobrecarregados, há o problema de ter onde deixar os filhos devidamente acompanhados. Por estas e outras razões, os professores passaram a ser vistos como pau para toda a colher, até porque o marketing político acentuou a ideia de que eram uma gente desocupada: bastou, assim, puxar das 35 horas de trabalho previstas no código do Trabalho e, desde então, os professores acabam a desempenhar funções obviamente não docentes, com prejuízos evidentes para aquelas que deveriam estar no centro da sua profissão. Pode-se dizer que os professores são obrigados a cobrir de modo equivalente o centro, a periferia e muitos terrenos adjacentes à sua actividade.

Para bem dos alunos, o professor não pode ser um profissional indiferenciado. Não se trata aqui de um problema de pedigree, de defender que os professores são uma casta que não pode sujar as mãos. É apenas uma questão de não se mexer naquilo que não se sabe, algo comparável àquilo que aprendemos quando nos dizem que não devemos mexer num ferido, sendo aconselhável esperar pela chegada dos especialistas.

A sabedoria popular aconselha a que não se toquem vários burros ao mesmo tempo, numa sensata e secular defesa da especialização. A ideia de que um professor deva ser um “superprofessor” é mais um dos muitos disparates que a opinião pública engole, como de costume, sem mastigar.

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3 respostas a Recentrar a função docente

  1. Pingback: PS e Educação: seis anos de ruína | Aventar

  2. Uma bela análise da multiplicidade docente. Que não pára de se lateralizar. Que não pára de se desdobrar. Até quando é que os professores conseguirão manter o milagre da multiplicação dos pães? Até quando é que os docentes conseguirão distender num tempo fora do calendário – subjetivo e psicológico? Em suma, até quando é que se vai continuar a persistir na falsa ideia de que as escolas constituem o cesto dos papéis das novas sociedades?

    Obrigado, em todo o caso, pela partilha e… continuação de bom trabalho!
    Abraço amigo,
    M.

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