A vaca é nossa!

O episódio do acordo assinado entre PSD e Governo em casa de Eduardo Catroga e guardado para a posteridade no telemóvel deste está tão carregado de signos e simbolismos que seria necessária uma equipa de semiólogos para produzir análises de profundidade suficiente.

Em primeiro lugar, é importante confirmar na atitude sorridente de Catroga, de telemóvel em punho, a mesma felicidade de uma criança que exibe um brinquedo novo. Que o documento assinado naquele momento histórico contribua para empobrecer pobres e remediados é algo que não pode, evidentemente, preocupar a criança que habita Catroga e Teixeira dos Santos.

Para uma completa explicação do acto, a primeira pergunta que ficou por fazer foi: se o telemóvel era propriedade de um dos retratados quem terá sido o fotógrafo? Na ausência de explicações, não me espantaria que tivesse sido, por exemplo, Ricardo Salgado, ou um desses pobres desgraçados que são obrigados à terrível provação de assistir incólumes aos sacrifícios impostos a todos os outros milionários que pululam pelas classes baixa e média.

Algum português mais distraído poderia, ainda, perguntar-se se um documento deste teor não deveria ter sido assinado no Parlamento, a casa da Democracia. Julgo, no entanto, que se trata, finalmente, de um passo lógico na carreira de PSD e PS: se o Estado é, afinal, propriedade de ambos, passa a ser perfeitamente apropriado tomarem decisões nas casas particulares de cada um.

Esta verdadeira deslocalização da Assembleia está, aliás, de acordo, com os actos de moderna gestão e vem colocar no devido lugar a hipótese de redução do número de deputados, defendida por muitos como uma medida de poupança, com a qual não concordo. Antes defendo que se feche o Dona Maria e que São Bento passe a ser Teatro Nacional, já que aí trabalha uma maioria de actores que fingem ter sido escolhidos pelo povo, que continuam a fingir que vota de acordo com o interesse dos eleitores e que obedecem cegamente às ordens dos encenadores convidados.

A minha avó, como qualquer português de gema, adora a vida dos outros. Se fosse uma adolescente, estaria agarrada à televisão por causa da “Casa dos Segredos”. À falta de televisão, recorreu, durante muitos anos, à principal máquina de espreitar de então: a janela. Como passatempo menos usual mas muito mais gratificante para qualquer coscuvulheira, adorava assistir a sessões de tribunal. Foi da sua boca que ouvi uma história que me ficou para sempre e que já não sei se foi verídica, mas é, pelo menos, instrutiva, aplicando-se totalmente aos pantomineiros que governam o país. Dois advogados, em nome dos respectivos clientes, disputaram ardentemente a propriedade de uma vaca. Terminada a sessão, despidos das funções, um dos causídicos perguntou, amigável e divertido: “Olha lá, afinal de quem é a vaca?” A resposta foi tão óbvia quanto surpreendente: “A vaca? A vaca é nossa!” Infelizmente, naquele tempo, não havia telemóveis com máquina fotográfica.

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3 respostas a A vaca é nossa!

  1. Pingback: Eduardo Catroga é o melhor amigo de José Sócrates | Aventar

  2. Pingback: Programa de governo do PSD: sempre a matriz empresarial | Aventar

  3. Manuela Cerca diz:

    Sempre bem, amigo Pisco! De facto a vaca é deles e só deles…

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