Pluridocência no Primeiro Ciclo

O mundo das ciências – das exactas às humanas – caracteriza-se, já há bastante tempo, por uma especialização cada vez mais micrológica, especialmente no âmbito da investigação de nível universitário.

O que devemos, então, esperar, de um professor dos ensinos básico e secundário? Que seja um generalista de grande latitude ou um especialista o mais informado possível numa área científica? Será aceitável, num mundo de acentuada especialização científica, que um professor possa dominar áreas tão díspares como o Português e a Matemática, mesmo tendo em conta que os alunos se encontram num nível primário dos conhecimentos? As decisões dos responsáveis políticos, desde há alguns anos, têm sobrevalorizado a os aspectos didácticos e pedagógicos, em prejuízo dos campos científicos, através de alterações brutais no âmbito das formações inicial (com o desastre bolonhês) e contínua. Como se isso não bastasse, aos professores têm sido atribuídas cada vez mais funções em campos exteriores à docência.

Na minha opinião, não é aceitável, independentemente do nível de ensino, que um professor possa ser, em termos científicos, um generalista, capaz de ensinar Português, Matemática, História, Geografia e Ciências Naturais, para além de que a diferentes áreas científicas correspondem implicações pedagógicas e didácticas diversas.

Durante muitos anos, foi-nos imposta a imagem do professor primário polivalente, contra a opinião de muitos profissionais com experiência que, já há muito tempo, defendem a especialização científico-pedagógica e, consequentemente, a pluridocência nos quatro primeiros anos de escolaridade. Ora, mesmo aceitando que a leccionação a alunos do primeiro ciclo poderá dispensar os professores de aprofundar a um certo nível os conteúdos científicos, não é aceitável a ideia de monodocência, como é inaceitável a ideia implícita de que um professor só precisa de saber exactamente o que ensina.

Aquando da criação das Escolas Superiores de Educação, o lançamento de cursos orientados para o Ensino Básico com especialização por áreas parecia ir no sentido certo. No entanto, isso não correspondeu à implantação da pluridocência no primeiro ciclo. Assim, desde então, os professores saídos das Escolas Superiores de Educação, independentemente da sua especialização inicial, são obrigados a ser generalistas, com consequências inevitavelmente negativas na qualidade das aprendizagens dos alunos, ainda mais numa altura decisiva da sua formação. Leia-se, a propósito do ensino da língua materna, o que escreveu Maria José Ferraz: “A didáctica da língua (…) nem sempre tem merecido a atenção necessária na formação dos docentes do 1.º ciclo e, em início de carreira, há quem não esteja preparado para ensinar a ler ou a escrever, mesmo quando seguiu um curso orientado para o desenvolvimento dessas competências. Acontece ainda que há professores a leccionarem o primeiro ciclo, tendo completado cursos que os habilitavam para outras áreas. Nos dois últimos anos dos cursos realizados nas ESEs os estudantes têm a possibilidade de optarem pela formação específica nas áreas de Educação Física ou da Música, podendo depois leccionar no primeiro ciclo do Ensino Básico o conjunto de disciplinas que o integram.” (Maria José Ferraz, Ensino da Língua Materna, Editorial Caminho, p. 91)

O Conselho Nacional de Educação realizou um estudo (podem consultar-se aqui alguns comentários de então), em cuja conclusão se aconselha alargar a monodocência ao segundo ciclo, argumentando vagamente com a necessidade de atenuar o trauma que as pobres criancinhas sentiriam ao passar da confortável situação maternal de um único docente no primeiro ciclo para a multidão de professores com que passam a confrontar-se no segundo. Como nota pessoal, posso referir o grande orgulho que senti nessa passagem, no já longínquo ano lectivo de 74-75: todas aquelas disciplinas me davam uma sensação de ter crescido mais um bocado. Aquilo que via como trauma já vinha da Primária: era obrigado a fazer os trabalhos de casa em vez de poder perseguir índios ou bolas de futebol (por vezes, ambos ao mesmo tempo).

O referido estudo assenta na imagem proletarizada do professor e as suas motivações nascem do economicismo acéfalo que caracteriza o poder político europeu. Seja como for, é de notar a ausência de demonstração científica para o trauma referido no parágrafo anterior.

Vítor Manuel Aguiar e Silva é professor e investigador universitário, especialista em Camões e em Teoria da Literatura, com um percurso notável em qualquer dessas áreas. O facto de ser uma autoridade universitária nunca o impediu de se pronunciar sobre o ensino da língua e da literatura portuguesas nos ensinos básico e secundário, socorrendo-se do mesmo rigor que sempre caracterizou tudo o que escreveu. A longa citação que se segue é retirada de uma colectânea de textos da sua autoria e creio que poderá aplicar-se a todas as áreas do conhecimento, para além da língua materna, podendo, ainda, constituir uma defesa implícita das virtudes da pluridocência no primeiro ciclo: “O ensino da língua portuguesa nos actuais 1º e 2º ciclos do ensino básico necessita de uma urgente e profunda revisão, em termos dos objectivos a alcançar, dos conteúdos programáticos, das estratégias pedagógicas e didácticas e da articulação dos dois ciclos (que poderão vir a evoluir, como será aconselhável para um único ciclo). (…) A formação de professores com habilitação legal para ensinarem Português deve ser substancialmente modificada, porque os respectivos planos de estudo não proporcionam, em muitos casos, a formação científica e pedagógica adequada. (…) Em área tão estrategicamente relevante como esta, o Governo devia ter a coragem, apoiado em propostas científica e pedagogicamente consistentes, de impor um tronco comum de disciplinas a todas as instituições do ensino superior que formam professores para os referidos ciclos do ensino básico e que ficaram habilitados a leccionar Português.”, (Vítor Manuel Aguiar e Silva, As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Almedina, pp. 301-302).

Em conclusão, penso que será fundamental, ainda mais num país doente em termos educativos, como os testes PISA mostram recorrentemente, alargar a pluridocência ao actual primeiro ciclo, a fim de que os alunos possam adquirir bases sólidas. Se não faz sentido que essa pluridocência se efective através da criação de várias disciplinas, terá todo o cabimento que os professores recebam formação que os prepare, pelo menos, para leccionar determinadas áreas. Admitir a monodocência no segundo ciclo, independentemente de se poder fundir num único ciclo com o primeiro, significará um empobrecimento da qualidade de ensino, para além de que abre as portas a um futuro alargamento para o terceiro ciclo, bastando, para tal, a encomenda de umas conclusões num qualquer estudo.

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3 respostas a Pluridocência no Primeiro Ciclo

  1. Sandrine Coelho diz:

    Boa tarde. Estou a realizar uma tese de mestrado em pluridocência no 1.º ciclo e, as várias pesquisas realizadas na net, levaram-me ao seu post. No seu texto refere o estudo efetuado pelo Conselho Nacional de Educação e introduz uma hiperligação para aceder a alguns comentários; no entanto, não consegui visualizá-los. Pode-me dar o site em que posso aceder a esse estudo? Obrigada.

  2. Pingback: No poupar é que está a perda: o fim do Segundo Ciclo | Aventar

  3. Pingback: Educação sempre a rimar com confusão: NO chegam ao Superior | Aventar

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