O deputado de Lamego – história de uma placa

 

 

 

Em anos que já lá vão, a minha contínua deriva esquerdista levou-me, por várias vezes, a votar no PS. O segundo fôlego (ou último suspiro) guterrista afastou-me e, desde então, o meu voto tem andado por outras paragens da esquerda, onde nem sempre me sinto confortável, sentimento que, de qualquer maneira, me é politicamente estranho, talvez por cinismo excessivo, talvez por individualismo comodista, talvez por continuar a esperar demasiado de quem escolhe exercer a mais nobre das actividades, a política.

Hoje, com realce para o campo da Educação, considero o PS responsável por um bombardeamento que arrasou o País, com consequências terríveis para o acentuar de um atraso económico e cultural endémico e constante, por muitos avanços que a Democracia e a Europa nos tenham trazido.

Ora, do mesmo modo que o meu benfiquismo me leva a embirrar muito mais facilmente com qualquer facto ou pessoa de origem portista, é natural que os últimos seis anos me tenham feito contrair uma alergia quase incontrolável a tudo o que esteja relacionado com o Partido Socialista. Dito isto, confesso, também, que procuro vigiar-me o máximo possível, para que as minhas embirrações não me transformem num troglodita que se limite a grunhir e a mostrar os caninos à vista de um dragão ou de uma rosa, o que, repito, não é fácil.

Tem circulado na blogosfera e chegou hoje ao Público o caso do deputado socialista Paulo Barradas, de Lamego, que alugou um escritório e colocou no exterior do prédio uma placa em que anunciava, exactamente, a sua condição de deputado do Partido Socialista. O objectivo confessado era o de estar aí disponível para receber os eleitores. O barulho mediático-blogosférico levou o dito deputado a manter apenas o nome na referida placa.

Noutras circunstâncias, seria natural que a urticária causada pela causa rosa me levasse a tecer comentários igualmente maldosos e jocosos sobre um provinciano qualquer que teria ficado deslumbrado pela condição de deputado da nação, uma espécie de Calisto Elói subindo das berças durienses à capital do Império.

Há dezasseis anos, quis o destino que o Paulo Barradas e eu nos cruzássemos na Universidade do Minho, unidos por uma paixão pela Idade Média, que continuamos a cultivar, até hoje, várias vezes em conjunto. No entanto, muito para lá do título académico que atingimos, deu-se entre nós o imponderável encontro de duas almas que redundou numa das amizades mais sólidas que tenho o privilégio de continuar a viver.

Para além da Idade Média, o Paulo tem uma paixão pela actividade política e cívica (e esta dupla adjectivação devia ser, não só etimologicamente, uma redundância), sempre confessada e frontalmente assumida, com a militância partidária a desempenhar um papel fundamental na sua vida.

Confesso que a minha desconfiança crónica relativamente aos políticos contaminou o meu primeiro olhar sobre a lamecense criatura. O posterior contacto fez-me descobrir que o Paulo, para além de gostar genuinamente do jogo político, tem da política a visão nobre de um serviço ao Outro. Não me admirou, portanto, saber que, numa atitude inédita entre nós, tinha aberto um escritório para poder ouvir aqueles que o elegeram e não tenho dúvidas de que, efectivamente, ouvirá, até, os que não tenham votado nele. Sei, portanto, que as críticas de que foi alvo foram injustas.

É claro que a paixão do Paulo pela política, militando num partido que me merece tantas críticas, deu azo a discordâncias eventualmente insanáveis entre nós, mas, muito por uma bonomia que nos é comum, nunca isso azedou, por um instante, a amizade com que ele me cumula, suportando, paciente e atentamente, os meus remoques e reparos, tal como fará com outros, certamente, num escritório em Lamego.

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2 respostas a O deputado de Lamego – história de uma placa

  1. Carmo Ribeiro diz:

    Fica-te bem defender os amigos e repor a verdade! Afinal os políticos não são todos iguais!Ainda há quem tenha preocupações genuínas com os votantes! É bom saber.

  2. Preso por ter cão; preso por se não ter. Mas só são objeto de crítica as pessoas que fazem positivamente alguma coisa…

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