Metas de melhoramento – mais um derivado do empresarialês

A ministra da Educação está esta semana a reunir com os directores dos estabelecimentos de ensino, pedindo-lhes que estabeleçam metas anuais, ao nível da sua escola, tendo em conta a existência de um objectivo nacional para 2015, expresso em três indicadores: taxa de retenção, exames nacionais e abandono.

Ao nível do secundário, Isabel Alçada pretende que a taxa de retenção desça de 18,7 para 12 por cento. O mesmo indicador deverá ficar pelos dez por cento no que se refere ao terceiro ciclo do ensino básico (contra os actuais 13,8 por cento), pelos cinco por cento no segundo ciclo (7,5 por cento) e pelos dois por cento no primeiro ciclo (3,4 por cento).

Aqui

 

Só um ingénuo pode acreditar que é possível prever exactamente como e o que vai ser um filho, graças a essa ciência inexacta que é a educação. Probabilidades, algumas; certezas, nenhumas.

Vamos imaginar, agora, que um professor, ao iniciar um novo ano lectivo, tem exactamente os mesmos alunos do ano anterior. Cada aluno é, por estranho que possa parecer a muita gente, um ser humano, nunca completamente previsível, cheio de alterações e permanências, sentindo novas motivações e desalentos inesperados. Um ser humano, pois.

Pode esse professor desejar que esse grupo de alunos aprenda mais do que no ano anterior? Pois pode e deve. Deve o professor procurar melhorar(-se), de modo a que a aprendizagem melhore? Deve, com certeza. Poderá esse mesmo professor, então, prometer, afirmar, garantir que a percentagem de aprovações ou de abandono vai subir ou descer? Pode, se for desonesto ou ignorante ou se concordar com a Ministra da Educação, sendo que esta terceira hipótese é uma reformulação das duas primeiras.

Tentem, agora, imaginar professores que não têm exactamente os mesmos alunos do ano anterior. Multipliquem isso por centenas de alunos em cada escola, ou seja, centenas de universos particulares inteiros, a arder de humana imprevisibilidade. Quem é que pode garantir, no seu juízo perfeito ou na mais pura das honestidades, que diminuir a percentagem de taxa de reprovações ou de abandono é uma meta exequível, seja em que medida for? O absurdo sai reforçado quando ficamos a saber que Isabel Alçada terá afirmado que “as metas de 2015 são definidas tendo em conta os objectivos da União Europeia para 2020, bem como os da Organização de Estados Ibero-Americanos para 2021.” Confirma-se que a globalização tem efeitos perversos, sobretudo porque a estupidez é, também, fenómeno global.

Se, algum dia, as escolas e as pessoas que aí trabalham tiverem o mínimo de condições que reclamam há anos, tudo associado à execução de verdadeiras políticas sociais, aumentará, com certeza, a probabilidade de que surja um verdadeiro sucesso educativo.

Entretanto, só um contabilista acéfalo pode olhar para uma escola como sendo uma fábrica infalível de aprovações e de diplomas, sujeitável a objectivos saídos do empresarialês. Enquanto o Governo e directores adjacentes continuarem a debitar inanidades deste calibre, a Educação pública de qualidade será, cada vez mais, um oásis de taxas de sucesso artificial assente em ignorância e iliteracia efectivas, que nunca poderão ser escondidas durante muito tempo. Apenas o tempo suficiente para que os cordeiros sacrificiais venham a ocupar, por exemplo, a presidência de uma Fundação qualquer, sempre graças ao mérito dos bons serviços prestados à cor certa, que não ao país.

 

 

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Uma resposta a Metas de melhoramento – mais um derivado do empresarialês

  1. Luísa diz:

    O melhor seria, pois era mais claro, que começassem a nomear os directores das escolas, tal como já fazem com os directores dos hospitais. Assim conseguiam-se todos os resultados políticos esperados.
    De qualquer modo, tal como as coisas estão, aquilo que parece é que os srs directores das escolas têm mesmo de apresentar resultados, caso contrário têm os dias contados no cargo.
    E assim vai a vida…

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