Os chumbos, segundo Daniel Oliveira

“Se explicamos uma coisa ao nosso filho e ele não percebe, dificilmente a melhor forma de resolver o problema será explicar-lhe tudo outra vez, da mesma maneira. A não ser que se veja o chumbo como um castigo, ele faz pouco sentido do ponto de vista pedagógico. Parece ser mais avisada a estratégia de, perante as dificuldades, redobrar a atenção naquele aluno e definir uma estratégia diferente. É o que fazemos como pais. É o que é suposto os professores fazerem. Na realidade, o chumbo é que é facilitista: desiste-se e passa-se o problema para o professor que se segue.
Claro que não há boas soluções se um professor for pouco competente. Se existir o chumbo, ele usa-o como forma de não fazer nada. Se o chumbo for difícil, ele passa administrativamente quem nada sabe. Mas dificultar o chumbo tem uma vantagem: diz ao professor que reter o aluno é a última possibilidade e que, antes disso, há muito para fazer. Ou seja, ele não pode chumbar um aluno antes de explicar muito bem o que fez para que tal não fosse inevitável.
A retenção é uma questão meramente metodológica e prática. Não é uma questão de princípio. Podemos ser muito exigentes e não chumbar quase ninguém. Basta sermos bem sucedidos a transmitir conhecimento. Podemos ser facilitistas e chumbar toda a gente. Basta acharmos que a nossa principal função não é ensinar, é avaliar.”

 Daniel Oliveira, Expresso, 07-08-2010

 

Antes de mais, gostaria de dizer que há muita gente a escolher o miradouro errado para ver a paisagem educativa. Na realidade, a discussão à volta dos “chumbos” centra-se nas consequências, fugindo do essencial: o grande problema está em saber se os alunos chegam ao fim de cada ciclo tendo alcançado as aprendizagens fundamentais (chamem-lhes conteúdos, competências ou andorinhas).

O texto de Daniel Oliveira no Expresso de 7 de Agosto, de que transcrevo os três últimos parágrafos, não abandona essa perspectiva e assume outros pontos de vista que poderiam ser subscritos por Maria de Lurdes Rodrigues ou por Isabel Alçada, duas senhoras que, em termos de Educação, são das piores companhias que se podem ter.

O cronista começa por comparar o dificilmente comparável: a atenção personalizada dada a um filho com uma aula dada a vários jovens. Numa coisa concordamos: se queremos que um aluno com dificuldades aprenda e, consequentemente, não seja reprovado, algumas das soluções passam por concentrar o mais possível a atenção em cada aluno e pela alteração de estratégia. O que fica por dizer é que os problemas de aprendizagem têm várias origens e deverão ter soluções adequadas às causas. Para Daniel Oliveira, o problema está, aparentemente, nos professores que não fazem o que deveriam, deixando claro que, na sua opinião, a reprovação é apenas um acto de desistência, numa condenação generalizada e, portanto, facilitista dos docentes.

Logo a seguir, explica que “dificultar o chumbo” deve servir para que os professores sejam obrigados a descobrir aquilo que nunca lhes passaria pela cabeça: a reprovação deve ser o último recurso. Reforça esta posição com uma proposta que já é uma prática corrente nas escolas: a obrigação de explicar resultados negativos. Daniel Oliveira ignora que essa mesma prática é fonte de uma burocracia descomunal, para além de ser sinal do princípio da desconfiança nos professores, abundantemente cultivado pelo socratismo.

O último parágrafo mantém o mesmo facilitismo argumentativo, reduzindo tudo a esta coisa simplicíssima que nenhum professor quer alcançar: “(…)sermos bem sucedidos a transmitir conhecimento.”

Portugal é um país doente em termos educativos. Por várias razões, os jovens não estão a aprender o essencial e é tão grave a situação dos muitos que passam de ano sem ter aprendido como a daqueles que são reprovados. Concentrar a discussão nos “chumbos” e decidir que o problema está só nos professores é contribuir para que tudo fique na mesma. É facilitismo, pois.

Reformulação de políticas sociais, inclusão de técnicos especializados nas escolas, redução do número de alunos por turma, entre muitas outras soluções, nada disso interessa. A Direita defende as reprovações, sem querer saber o que acontece aos alunos reprovados. A Esquerda, obcecada pela inclusão, contribui para continuar a esconder o problema com ideias que derivam de reflexos, quando se impunha uma reflexão.

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