Do conservadorismo como virtude

 

Como declaração de interesses, gostaria de deixar bem claro que vivo numa deriva esquerdista desde que me conheço politicamente, mantendo-me como votante permanentemente desconfiado (desencantado, por vezes) nesse quadrante.

O facto de ser de esquerda não me impede, no entanto, de ser conservador, eventualmente num sentido algo reaccionário da palavra. No que respeita à Educação, face a tanta e tão constante inovação, dou por mim a ser ainda mais conservador do que no resto.

 Assim, penso que uma das características mais nocivas da Educação no Portugal democrático é a da ânsia pela novidade, o que tem assumido, na prática, a aparência de um experimentalismo constante, visível, por exemplo, na quantidade absurda de reformas curriculares, com consequências desestabilizadoras no sistema.

Ministério e Universidades, entre outras instituições, debitam constantemente novidades científicas, pedagógicas ou outras que deixam cair sobre as escolas, sem preocupações de planeamento ou de experimentação (como acontecia, por exemplo, com as chamadas escolas-piloto), com estudos habitualmente pouco rigorosos (muitas vezes, simples descrições do estado da arte de bibliografia estrangeira ou encomendados para garantir  determinadas conclusões) e, sobretudo, com um absoluto desprezo pelos professores, considerados meros executores acéfalos, proletários ao serviço das mentes iluminadas. As críticas às inovações são sempre desvalorizadas e atribuídas à natural dificuldade em aceitar a novidade, numa atitude sobranceira típica dos novos-ricos intelectuais. Acrescente-se que é sempre mais ou menos fácil perceber que na base de todas essas modificações estão apenas critérios economicistas (mega-agrupamentos) ou manobras de marketing político (computadores para todos), mal escondidos pelo discurso que finge defender a “escola pública”.

Para cúmulo, entre os professores, existe, demasiadas vezes, a aceitação acrítica, ou mesmo adesão entusiástica, da maioria dessas novidades, com argumentos tão profundos como “Agora é para fazer assim!” Foi desse modo, por exemplo, que as “competências” passaram a fazer parte do vocabulário deslumbrado dos docentes, incluindo avisos paternalmente castigadores contra o uso de palavras como “conhecimentos” ou “conteúdos”, termos que revelam os empedernidos que resistem à religião das competências.

Ora, a Escola deve servir para transmitir uma tradição. A novidade que a escola deve trazer aos alunos é, exactamente, a tradição. Os jovens devem confrontar-se com uma linguagem diferente da que utilizam, devem ser obrigados a pensar sobre todos os tempos da História.

A Educação é um assunto debatido há milhares de anos. Esse debate terá começado aquando da invenção da roda, objecto que se tem mantido essencialmente o mesmo desde o início. Imaginem, então, que, de repente, alguém resolvesse substituir a roda por um cubo, apenas porque é novidade. Seria o equivalente àquilo que querem, todas as semanas, fazer à Educação.

Significa isto um ataque cego à novidade? Não, significa um ataque de olhos abertos à novidade. Prefiro uma Escola tradicionalista e desconfiada a uma outra tão deslumbrada pela novidade que acaba por baralhar as prioridades.

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5 respostas a Do conservadorismo como virtude

  1. Isabel, não maça nada. Olá, João, obrigado pela visita.

  2. isabel calado diz:

    Uma vez mais sintonizo consigo e permito-me dizer-lhe que não só não tenho medo das palavras, como, sobretudo de há algum tempo para cá, faço questão em reabilitar algumas que, por vezes injustamente, começaram a ser erradicadas da nossa tão fantástica língua. Outras vezes, de mázinha mesmo, até lhes troco as voltas, a pedir para elas uma audição menos normalizada ou rotineira e a recuperar a propósito delas sons e sentidos menos desgastados. Enfim… não o maço com isto. Só dizer-lhe que gosto do termo “conservador”, mas tenho uma certa alergia aos ismos… O António atribuiu virtude ao conservadorismo e foi só a isso que reagi. Mas isto não passa de um pormenor e o meu comentário foi para lhe dizer: concordo!

  3. João Sá diz:

    É isso mesmo.

  4. isabel calado diz:

    Concordo com quase tudo. Só não lhe chamaria, à virtude, “conservadorismo”, mas “conservação” ou, para sair dos perigos desta palavra, “preservação” ou ainda, numa expressão mais modernizada, e para o sistema em análise (a Escola), “capitalização de esforços”. Mas o essencial, o António disse-o e eu, que o penso há vários anos, gostei que o dissesse.

    • Obrigado por ter comentado. Penso que não devemos ter medo das palavras. embora a palavra “conservador” possa ter algum sentido pejorativo. De qualquer maneira, o essencial é não esquecer a tradição, por muito que se deva inovar.

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