Um balanço desnecessário

     A ignorância é o estado normal da humanidade e já se sabe há muito tempo que sábio é aquele que se sabe ignorante. Os problemas surgem da inconsciência dessa ignorância, porque aquele que não sabe que é ignorante acredita que já sabe tudo. O problema surge, portanto, quando o ignorante é atrevido.
     O que é um ignorante atrevido? É alguém que, não sabendo que é ignorante, emite opiniões sobre os assuntos que, exactamente, ignora. Não sei se este retrato corresponde à maioria dos portugueses, mas parece-me um dos principais passatempos lusos, com reflexos inocentes no futebol e consequências gravíssimas na Educação. No futebol, nenhum presidente de clube vai a uma tasca contratar para treinador um qualquer fala-barato que grite soluções para os problemas da sua equipa; na Educação, é fácil (e, até, preferível) a qualquer desconhecedor do assunto chegar a Ministro. À primeira vista, Isabel Alçada distingue-se bem dos gritadores agressivos que enxameiam as tabernas portuguesas, afiançando que fariam melhor. Maria de Lurdes Rodrigues já se encaixava melhor numa tasca, sobretudo se fosse preciso haver porrada. A verdade, no entanto, é que qualquer uma destas senhoras e respectivos secretários de estado não foram mais do que títeres nas mãos do núcleo duro socrático, cuja preocupação com a Educação é pura e simplesmente inexistente e, quando declarada, postiça.
     Um ignorante atrevido é um incómodo; um ignorante atrevido e poderoso é um problema. Os decisores políticos sobre Educação em Portugal, nos últimos anos, vão além disso: não querem saber. Limitam-se a ser atrevidos e poderosos. A Escola Pública é apenas um mal necessário cujo peso no Orçamento de Estado deve ser constantemente minimizado e tudo tem servido esse propósito (aulas de substituição, pseudo-avaliação dos professores, anatematização acrítica da reprovação, fecho de escolas, criação de mega-agrupamentos, etc.). Para fazer de conta, os decisores usam frases mais vazias que bonitas, com a ajuda de entidades e/ou pessoas que, por conveniência ou ignorância, proporcionam apoio ao desastre que tem sido a política educativa.
     O discurso sobre Educação é, aliás, baseado na mais absoluta desfaçatez. Como exemplos mais recentes, temos Isabel Alçada a afirmar que não é facilitismo conferir a possibilidade de um aluno passar directamente do 8º. para o 10º ou Sócrates a considerar “criminoso” não fechar às cegas escolas do primeiro ciclo, isso sim um crime.
     Que fazer diante de todo este amontoado de disparates? Em primeiro lugar, sentir um quase saudável desencanto. Depois, continuar a pensar nos modos de reagir, sobretudo se saírem da quadratura que se limita a greves ou a manifestações. Continuando a não possuir receitas, acredito que a solução passará por sistematizar/recuperar ideias sensatas sobre Educação (e não apenas nem sobretudo sobre a corporação docente) e torná-las públicas, até ao dia em que uma larga maioria dos cidadãos se preocupe genuinamente com o tema, a ponto de os políticos perceberem que não podem continuar a ser ignorantes.
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Uma resposta a Um balanço desnecessário

  1. Anonymous diz:

    Ouviste a opinião do Professor Marcelo precisamente sobre estes dois temas, hoje à noite?Ivone

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