Pai Nosso

 Este texto foi publicado em bom papel, há uns anos, num tempo em que se corriam riscos (que joke tão private). Tive saudades e republico.

     Ulisses guiava a caminho da escola do filho. Penélope telefonara-lhe: Telémaco tinha saído, a meio de uma aula, por uma janela, dizendo que ia à procura do pai. O psicólogo já tinha dito que o miúdo estava traumatizado devido às prolongadas ausências paternas. Na verdade, o facundo Ulisses, o director-executivo da Ítaca Comunicações, o mesmo homem capaz de convencer japoneses a comprar computadores, não conseguia convencer-se a si próprio de que passava pouco tempo com o filho. Ainda por cima, Penélope julgava-se ocupada, enquanto tecia, há anos, com um perfeccionismo ocioso o mesmo tapete de Arraiolos, substituto, na opinião do psicanalista, de outras coisas que não queria dizer para que a paciente nunca pudesse descobrir.
     Tinha de se despachar para voltar a tempo da reunião com os Lotófagos. Amaldiçoou o filho e os professores que não sabiam fazer o que lhes competia. Insultou Penélope com palavras que nunca lhe dirigiria, porque já não se davam ao luxo de se emocionar na presença um do outro. Se tivesse tempo, havia de ter uma conversa com o filho ou, então, comprava-lhe um computador novo. Quando estacionou à porta da Escola Secundária de Tróia, ainda tinha mais pressa de se ir embora.
     Ao mesmo tempo, chegava Baco, com o sorriso avinhado das nove da manhã, ainda a tentar lembrar-se do nome da filha devido à qual fora chamado à escola. Manteve defensivo o mesmo sorriso quando o porteiro, com o ar mais estranhamente natural do mundo, lhe perguntou qual era o nome da directora de turma da filha. Enquanto voltava a fazer um esforço por se lembrar do nome da filha, esqueceu-se do resto da pergunta. O porteiro, com a superioridade dos sóbrios, aconselhou-o a informar-se no PBX.
    Pelo caminho, cruzou-se com Dédalo, o arquitecto que queria ter sido pintor. O desejo de que não acontecesse o mesmo com o filho levava-o a perder-se nos labirintos do sistema de ensino, deslocando-se à escola com uma regularidade maníaca, sempre com uma crítica amável para cada um dos professores. Hoje saía confuso: o director de turma dissera-lhe que o Ícaro estava talhado para altos voos, embora fosse um bocadinho aéreo.
     No átrio da escola, Neptuno falava com um elemento do Conselho Executivo, procurando, aflito, esconder a sujidade das unhas e descobrir palavras de licenciado. A pesca rendia cada vez menos e a vida era escuridão à entrada do túnel. Para piorar a situação, o seu filho, Polifemo, vivia uma adolescência triste, com uma crença desmesurada na sua fealdade, arrastando pela escola uma agressividade calada e uma paixão a tempo inteiro por Galateia, considerada, por unanimidade, uma verdadeira ninfa.
     Foi então que, por momentos, homens, mulheres e crianças ficaram em silêncio e sem salvação possível. Vénus, uma louraça de formas divina e devidamente abundantes, entrava no átrio, com a segurança de quem se sabe obrigatoriamente observada. Tinha um florescente negócio de camisas que lhe perfumava a beleza com essências de bem-estar económico. Todos queriam ser directores de turma do filho, Cupido, um rapaz míope e de suave malvadez, com a mania de atirar bolinhas de papel pelo tubo da esferográfica. Há dois dias, o professor de Ciências sentira a suprema felicidade de ter sido atingido, antecipando, desde logo, uma conversa ternamente indignada com a mãe do anjinho.
     No momento em que o silêncio estava prestes a quebrar-se na necessária agitação de um átrio escolar, Helena saiu da secretaria. Vénus e Helena eram velhas inimigas, desde que esta ganhara um concurso de beleza, já há uns anos. Helena era de uma beleza tão dócil que apetecia raptá-la e Vénus, que ficara em segundo lugar, acusou-a de se ter feito a Páris, presidente do júri. Helena sorriu sonsa e aquela noite no Bar-Dançante “Olimpo” foi uma das mais violentas de sempre, tendo Helena fugido com o ceptro, o televisor, o fim-de-semana no Algarve e Páris.
     Juno chegava à escola, de braço dado com Júpiter, o presidente da Junta. O homem era célebre por não poder ver um rabo-de-saia, obrigando-a a andar sempre colada a ele, com rugas de ciúme constante. Apesar de tudo, tinha acedido a criar Hércules, fruto dos amores do autárquico esposo com Alcmena, cujo marido, péssimo Anfitrião, exigira, sob ameaça de divórcio, que o filho fosse entregue ao pai. Talvez devido a esta estranha situação familiar, o rapaz tinha uma propensão para a violência, com um currículo extenso de olhos negros e portas partidas.
     No Gabinete do Conselho Executivo, o senhor Deus, um antigo hippy de imensas barbas brancas, ecologista e naturista, trovejava com Minerva, a presidente: que era um escândalo que não houvesse comida macrobiótica e que os professores quisessem obrigar o filho a estudar matérias anatemizadas pelo Maio de 68, que ninguém entendia o rapaz, proibido de ser proibido, e até parecia que o queriam crucificar. Jesus ouvia seráfico e tentou acalmar o progenitor:
     – Perdoa-lhes, pai, que eles não sabem o que fazem.
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