Acordo ortográfico – ao correr da pena

Das várias leituras que tenho feito sobre qualquer ortográfico, não descortinei, até hoje, nenhuma razão científica para que se tenha realizado. Talvez isso se deva ao facto de não haver nenhuma razão científica. A ortografia, quando nos metemos por acordos e discórdias, é, na minha opinião, uma questão afectiva e político-económica, uma mistura explosiva, portanto.
A maioria dos adversários do acordo cai no erro habitual de querer disfarçar o afecto com argumentos aparentemente racionais e sempre alarmistas. Na verdade, o acordo não fará desaparecer a língua de Camões ou de Eça, que, aliás, usaram ortografias diferentes um do outro e da actual, sendo que a pronúncia do nosso épico seria, com certeza, diferente da nossa. Também não é sério afirmar que o desaparecimento das consoantes mudas será a morte de alguma consciência etimológica, porque, na verdade, essa consciência está apenas ao alcance de alguns privilegiados que puderam aprender a língua materna num tempo em que o Ensino era mais exigente e que juntaram a isso o estudo do Latim. Pelo meio, ainda aparece recorrentemente o arremesso patriótico de que não devemos curvar-nos perante os brasileiros, como se a unificação ortográfica nos obrigasse a sambar ou como se o portuguesinho não vivesse já deslumbrado com tudo o que é brasileiro, facto tristemente verificável na antroponímia telenoveleira ou nas pálidas tentativas de desnudação carnavalesca, no Inverno de Fevereiro, ou, ainda, na substituição forçada da palavra “bicha” por “fila”.
A fraqueza dos argumentos com que atacam o Acordo, no entanto, não fortalece quem o defende. As declarações feitas por responsáveis da “Lusa”, do “Sol” ou do “Record” no programa “Páginas de Português” da Antena 2, no dia 3 de Janeiro (pode ouvir-se aqui), falam todas muito da importância do mercado, essa espécie de argumento único que a tudo se sobrepõe, mesmo quando se fala de Cultura e de Humanidades. De resto – e voltando, ainda, ao mercado –, não acredito que um autor português passe a vender mais no Brasil por causa da nova ortografia e vice-versa. Para além disso, entre os vários defensores, há a consciência de que as modificações serão mínimas, o que nos leva a perguntar se por tão pouco valerá a pena modificar uma ortografia, ainda para mais quando sabemos que a fonética imporá, salvo erro, uma grafia “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil (pois, lá o “p” não é mudo).
Voltando, ainda, ao programa radiofónico anteriormente referido, fiquei a saber que o “Record”, o primeiro jornal a aplicar o Acordo, não o cumpriu integralmente, tendo o seu responsável confessado que, sem acentuação gráfica, seria difícil identificar o verbo ‘parar’ no título (recorrente) “Ninguém pára o Benfica!”, para além de “espectadores” sem a consoante muda ter sido rejeitado, tendo em conta as possíveis consequências fonéticas e, logo, semânticas. Termino este parágrafo com uma nota pessoal, um desejo: que o título com o Benfica possa aparecer em Maio com o verbo no pretérito perfeito.
Retomando a questão ortográfica a um nível pessoal, a minha relação com as duas ortografias foi extremamente fácil e nunca me causou problemas de compreensão. Na mesma infância em que ainda fui submetido a uma escola primária exigente, li com fervor as edições brasileiras da Disney, os Patinhas, porque,  nesse tempo, não havia edição portuguesa. Em consequência disso, durante vários anos, pensei que Walt Disney era brasileiro.
Hoje, mantenho com a ortografia brasileira uma relação que me parece justa: se o autor é brasileiro, prefiro lê-lo como escreve. Se não for, fico mais confortável com a ortografia europeia. Mesmo sem antever hecatombes, a verdade é que ninguém me convenceu, ainda, da necessidade de unificar a ortografia, porque não haverá desacordo que me impeça de continuar a gostar de Luís Fernando Veríssimo ou de Eça nem haverá acordo que me obrigue a ler Paulo Coelho ou Margarida Rebelo Pinto.
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