Educação e suas falácias amestradas. Toda a gente percebe de educação – parte 2

    
     Já aqui tinha feito referência ao vício de perorar sobre Educação, sobretudo quando não se domina o assunto. Este texto do Ramiro Marques pôs-me no caminho de mais um exemplo e não resisto a intercalar alguns comentários a mais uma colecção de dislates que adorna todos e cada um dos parágrafos. É ler as citações seguidas dos comentários.    
“O alargamento do sistema – hoje universal, apesar dos 14,7% de abandono no fim do 9º ano – transformaram Portugal num país moderno. Infelizmente, o sistema ficou eternamente marcado pelo PREC. E a herança sente-se ainda, na forma pouco eficaz como as escolas são geridas. Ou melhor, não são geridas. As escolas portuguesas são organizações onde todos mandam e ninguém tem responsabilidade ou se sente responsabilizado. Nas escolas funciona a utopia da democracia total. Até os recém criados directores de escola – fruto da nova lei da gestão das escolas – são eleitos pela Assembleia de Escola (que também é escolhida em eleições, e inclui professores, pais, alunos, funcionários e representantes da autarquia).”

Comentário

     O sistema de ensino ficou negativamente marcado pelo PREC, é certo, mas não é menos verdade que o salazarismo condenou à ignorância e/ou à iliteracia milhões de portugueses, com reflexos visíveis ainda hoje (e num âmbito que ultrapassa o sistema de ensino, como já demonstrou José Gil). O problema do ensino não está na Democracia, está na qualidade dos professores, dos encarregados de educação, dos alunos e dos políticos (e das políticas, portanto), sendo necessário analisar qual ou quais destes factores têm sido preponderantes na evidente falta de qualidade do sistema de ensino em Portugal.
     A propósito da afirmação de que as “escolas portuguesas são organizações onde todos mandam e ninguém tem responsabilidade ou se sente responsabilizado.” só me apetece perguntar como pode a senhora provar isto ou o contrário. Mesmo em escolas menos organizadas, nunca deixei de sentir a existência de uma hierarquia e sempre se soube do imenso poder que as direcções regionais, por exemplo, tinham sobre as escolas, o que tem redundado, aliás, ao longo dos tempos, numa limitação crescente à apregoada e nunca praticada “autonomia das escolas”(que corresponderia, isso sim, a uma verdadeira responsabilização de cada estabelecimento de ensino).
     Para além disso, afirmar que “ninguém se sente responsabilizado.” revela um poder de adivinhação tão sobrenatural que a senhora jornalista poderá iniciar uma carreira no mundo estrelado do esoterismo. A Maya que se cuide!
     Entretanto, fico a perceber que a democracia deve ser parcial e não total, como se a democracia significasse automaticamente ausência de autoridade ou de hierarquias. Será que esta senhora defende que a boa gestão e a democracia são incompatíveis? Se fosse esta senhora a mandar, será que deixaria de haver eleições, de modo a permitir que Portugal passasse a ser bem gerido? Será que o defeito dos políticos que têm desgovernado Portugal está no facto de terem sido democraticamente eleitos?
     O parágrafo termina com uma falha imperdoável: os directores das escolas são escolhidos pelo Conselho Geral e não pela Assembleia de Escola. É o que dá substituir o jornalismo de investigação pelo jornalismo de adivinhação.

“Isto explica porque nenhuma escola fica especialmente humilhada por aparecer num mau lugar no ranking que é feito com base nas notas dos alunos nos exames nacionais. É verdade que o ranking compara coisas diferentes, colégios com alunos escolhidos a dedo e liceus obrigadas a aceitar os mais indigentes alunos externos. Na prática, os rankings servem mais de guia para pais que procuram a melhor escola privada para os seus filhos do que para hierarquizar escolas.”

Comentário
     O primeiro período deste parágrafo é mais um exemplo perfeito do jornalismo moderno: sem investigação ou com base no silêncio, consegue descobrir estados de alma alheios. Não tem a senhora acompanhado as reportagens que todos os anos se têm feito à volta dos rankings? Não tem reparado como as escolas mais bem cotadas se apressam a mostrar o orgulho com que surgem em lugares cimeiros? Não bastaria isso para imaginar o estado de espírito de todos os que estão à frente das escolas menos cotadas?
     Quem trabalha nas escolas sabe perfeitamente que os resultados dos alunos dependem de variadíssimos factores, sendo um dos mais importantes o estatuto sócio-cultural. Nada disso deve servir para desreponsabilizar ninguém, mas a verdade é que ajudar um determinado aluno a alcançar 10 valores num exame pode revelar muito mais mérito do que ter um aluno que obtenha 20 no mesmo exame.
     Os períodos seguintes acabam por servir para demonstrar que os rankings comparam o incomparável e a senhora jornalista acaba, no fundo, por justificar a hipotética atitude de desresponsabilização por parte das escolas.

“Mas o sacudir de ombros das escolas e dos seus ideólogos em relação aos rankings é assustador. Assim como não passa pela cabeça da maioria dos professores ser avaliado pelos resultados dos alunos – embora, no limite, seja esse o único critério objectivo para o fazer – também não passa pelos projectos das escolas lutarem para melhorar os seus lugares nos rankings. A culpa não poder ser atirada apenas para cima das escolas – muitas têm projectos de combate ao insucesso escolar que muitos alunos desaproveitam, e os profesfesores queimam pestanas fazendo fichas de recuperação.”

Comentário
     A alergia às ideologias surge sempre na boca de todos os que pensam que os números são a única maneira de reproduzir a realidade. A escola é feita de muito mais do que dos resultados dos alunos e, portanto, os resultados dos alunos não são suficientes para aquilatar de tudo o que a Escola foi capaz de lhes dar. Como avaliar, por exemplo, a influência positiva que um professor tem sobre um aluno, mesmo quando este teve maus resultados?
“O problema é que as escolas não são geridas como empresas. Se houvesse uma luta diária pelos resultados e a responsabilização de quem não os conseguiu atingir, provavelmente orgulhar-se-iam de ficar num bom lugar. Mas se calhar, esta é apenas outra utopia.”
 Comentário
     O paradigma empresarial está bem patente nas palavras ocas de quem vê na gestão empresarial a solução para qualquer instituição, uma verdadeira escola do pensamento único, sintoma de vistas curtas.
     Também eu gostaria de voltar a viver num mundo em que as pessoas escrevessem apenas sobre assuntos que dominem, mas é apenas outra utopia.
Anúncios
Esta entrada foi publicada em Educação, Educação e suas falácias amestradas com as etiquetas . ligação permanente.

4 respostas a Educação e suas falácias amestradas. Toda a gente percebe de educação – parte 2

  1. Pingback: A pressa é inimiga da Educação | os dias do pisco

  2. Pingback: Acordo Ortográfico: António Emiliano e a insignificância da ortografia | Aventar

  3. Pingback: Ainda o sucesso dos alunos | Aventar

  4. João Sá diz:

    Muito bem. Aliás, como todos os anteriores.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s