Educação e suas falácias amestradas. Um balanço provisório.

“Deixem-nos trabalhar!”




     Chego a este ponto com o mesmo desconforto de qualquer autor de antologias, triste por ter deixado de fora tantas questões, muito triste por não ter tempo ou talento para tratar de todas e mais triste ainda por haver tantas questões. A verdade é que, diante do desastre que foi a política educativa dos últimos quatro anos, era difícil escolher. Felizmente, tudo o que é mau também acaba e chega a altura de fazer uma súmula, ainda que parcial e provisória.
     As medidas tomadas pelo Ministério da Educação acabarão por contribuir, em larga medida, para a perda de qualidade da Educação em Portugal, tudo muito bem embrulhadinho em estatísticas de um sucesso que não passa de uma aparência. Acrescente-se que tudo isto tem sido feito com o apoio expresso do Primeiro-Ministro e com o beneplácito de um Presidente da República que tem tido cada vez menos problemas em emitir as suas discordâncias relativamente ao governo. Ora, se até agora promulgou tudo e mais um par de botas que tenha vindo da 5 de Outubro, é porque, naturalmente, concorda com a política seguida. Nada que deva admirar todos os que se lembrem dos dez anos de cavaquismo em que o “Portugal de sucesso” vendido por Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro era antepassado consanguíneo deste embrulho tão bonito como vazio que é agora apregoado por Sócrates.
     As medidas tomadas pelo Ministério têm consequências terríveis sobre as duas vertentes que devem definir um professor: a científica e pedagógica.
     Do ponto de vista científico, a retirada de tempo individual de trabalho coloca dificuldades ao processo de formação contínua dos professores, sendo de realçar que esse processo é também informal, isto é, depende do tempo disponível. Como se isso não bastasse, o modo como o Ministério interveio na formação contínua formal veio empobrecer um sistema que precisaria de várias afinações, mas nunca ao ponto de o levar ao depauperamento em que se encontra.
     Essa mesma retirada de tempo individual de trabalho tem repercussões óbvias sobre a vertente pedagógica da actividade docente: se um professor não tiver tempo suficiente para preparar convenientemente as aulas e para se preparar para preparar as aulas, a qualidade do seu trabalho terá de se ressentir disso.
     Para além disso, a qualidade do trabalho dos docentes é prejudicada por muitos outros factores também da responsabilidade deste Ministério, nomeadamente, as aberrações a que são sujeitos milhares de professores contratados, a criação de um Estatuto do Aluno que alimenta a irresponsabilidade ou a organização facilitista de cursos profissionais e cursos de educação e formação, cujo contributo para as estatísticas de sucesso não foi, ainda, devidamente analisada.
     Aceitando-se como bons estes argumentos, a imposição de qualquer modelo de avaliação do trabalho docente nunca poderia passar de mais uma aparência. Ora, a verdade é que o governo nunca disfarçou que a principal preocupação era a progressão na carreira e foi fácil perceber, desde o início, que a rábula da avaliação escondia mal o objectivo de conter a despesa, a qualquer custo.
     Desde há uns vinte anos, vivemos num paradigma empresarial, com os economistas a debitar palavreado dogmático acerca do modo como a sociedade se deve organizar, ficando todos os sectores sujeitos a uma terminologia que nem sempre lhes assenta bem. A Economia deve estar ao serviço da sociedade e não o inverso. Quando uma sociedade, por motivos alegadamente económicos, resolve poupar no essencial, está a adoecer. Um país que continua a ressentir-se de problemas de iliteracia tão graves não pode, ainda, poupar na Educação. Há muita gente por educar e isso não se resolve com distribuição de diplomas. Os crime de lesa-educação cometidos por este governo terão efeitos por muito tempo e há que ter em conta que Educação e Cultura andam de mãos dadas, o que quer dizer que este governo contribuiu para tornar o país mais inculto. Recorrendo à metáfora popular, o verdadeiro mexilhão é o aluno, ou seja, o futuro.
     Por várias razões, a mobilização dos professores tem sido insuficiente e isso tem permitido que os sucessivos governos venham impondo medidas lesivas para a Educação. É importante que isso não volte a acontecer, é fundamental que os políticos nunca mais pensem que podem fazer alterações fundamentais na Educação sem o apoio dos professores ou até contra os professores. A classe docente tem, agora, responsabilidades acrescidas: depois de lutar, há que reconstruir. É, então, importante que ninguém se iluda com as derrotas e as vitórias do dia 27. O trabalho de recuperação das ruínas e de acompanhamento das obras deverá ter início já no dia 28.
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