Educação e suas falácias amestradas. As maravilhas da Escola a Tempo Inteiro.

     Uma das bandeiras do governo e dos comentadores entusiásticos é a da escola a tempo inteiro. O objectivo é o de ajudar as famílias que não têm onde ou com quem deixar os filhos, dando-lhes a hipótese de depositar as crianças.

     Trata-se de mais um caso em que as ideias propagandeadas entram em conflito com as práticas: todos os políticos enchem a boca com a necessidade de proteger as famílias, contribuindo para aumentar a qualidade de vida e o tempo passado com os filhos. Há aqui, como já várias pessoas chamaram a atenção, e antes de mais, um problema sociológico grave: o governo, em vez de enfrentar, efectivamente, as questões laborais, de modo a proteger as famílias, usa, mais uma vez, a Escola como válvula de escape para problema sociais que não se querem, na realidade, resolver. É claro que o sucesso desta medida é imediato, porque muitos pais, deixados desamparados perante a selvajaria do mercado de trabalho, agradecem que alguém lhes tome conta dos filhos e agradecem – já se sabe – com votos na altura certa, por razões erradas. A Escola a Tempo Inteiro é, portanto, a outra face da Família sem Tempo.
     O verdadeiro problema desta obsessão está nas consequências sofridas pelas crianças que passam demasiado tempo fechadas num mesmo espaço. Esta reportagem (Demasiadas horas na creche afectam crianças) refere-se às creches, mas não me parece abusivo alargar as conclusões a outras faixas etárias. Esta deveria ser, evidentemente, a primeira preocupação de qualquer governo responsável. Em vez disso, debitam-se entusiasticamente loas a uma medida violenta. Desculpem o mau gosto, mas o trabalho, sobretudo quando mal concebido, não liberta.
     Ao mesmo tempo, cria outros problemas laborais. Efectivamente, esse prolongamento faz-se à custa do aumento de permanência dos professores nas escolas, prejudicando, mais uma vez, o seu tempo individual de trabalho. Por outro lado, as chamadas Actividades de Enriquecimento Curricular são da responsabilidade de professores contratados em situação de precariedade, numa situação absolutamente bizarra e, ao mesmo tempo, vulgar no mundo da Educação: há profissionais considerados necessários a quem se paga uma ninharia e a quem se nega a efectivação. O Inglês, a Música ou a Educação Física são fundamentais, mas não à custa de mão-de-obra barata.
     De uma cajadada, o governo acentua as injustiças sociais e compromete a qualidade de ensino. Mais uma vez. Leia-se, a propósito o magnífico texto publicado no blog “Rua do patrocínio”: Escola a tempo inteiro um anacronismo?.
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