Chico-espertismo, um superpoder. Mais um editorial de João Marcelino.

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Citação

 

 

“Por acaso do calendário, o regresso às aulas, este ano, ocorre em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas. Como sabemos, o tema “educação” é um dos eixos centrais das propostas apresentadas aos eleitores. Como também sabemos, foi nesta área que se registaram as maiores convulsões sociais dos últimos quatro anos e meio de governação. Os professores, que resistem a serem avaliados, têm-se mobilizado em manifestações de protesto. O alvo tem sido o PS, mas seria o PSD se fosse este o agente da reforma. O que não será aceitável é que, em plena reabertura do ano escolar, o tema seja utilizado como arma de arremesso político.

É um facto histórico que na génese dos partidos socialistas/trabalhistas ou sociais-democratas estão os sindicatos. Em Inglaterra, há mesmo uma quota, que é preenchida pelos representantes dos trabalhadores. Já em Portugal é conhecida a íntima ligação entre partidos e sindicatos – CGTP e PCP ou UGT e PS.

Para o próximo dia 19, estão convocadas várias acções de protesto organizadas pelos chamados “movimentos” independentes de professores. A Fenprof, liderada pelo dirigente comunista Mário Nogueira, já disse que prefere esperar pelo dia seguinte às eleições. Mas o sindicalista tem aparecido de forma regular ao lado de Jerónimo de Sousa defendendo as mesmas posições dos ditos professores independentes. Ou seja, votem em quem votarem, votem contra as maiorias absolutas.

Mandaria a ética democrática que, em período eleitoral, os sindicalistas se abstivessem da mobilização das massas, como forma de tentar condicionar o resultado das eleições.”

 

Aqui

 

 

Comentário

 

                O editorialista começa por afirmar que “o tema “educação” é um dos eixos centrais das propostas apresentadas aos eleitores.” e, depois de reconhecer a existência de “convulsões sociais”, acaba por admitir, implicitamente, que se tratou de um problema laboral, ao fazer alusão à resistência dos professores a serem avaliados.

                Antes de chegarmos à questão da “ética democrática”, não posso deixar de me deliciar com a manifestação de uma mentalidade muito portuguesa, o chico-espertismo, que consiste em saber exactamente o que pensam as pessoas independentemente do que afirmarem. Para o chico-esperto, as palavras alheias só servem para esconder intenções e nunca para as revelar. Assim, diante dos professores que se manifestaram repetidamente contra este sistema de avaliação, Marcelino, dotado dos superpoderes do chico-espertismo, grita: “Vocês não querem é ser avaliados!”

                Outra manifestação de chico-espertismo consiste em gritar “Assim não vale!” sempre que as regras de jogo possam impedir a nossa vitória. O chico-esperto, quando rapazola, era aquele que protestava contra a força dos chutos adversários (“Ei, não vale estouros!”), permitindo-se aquilo que queria impedir aos outros. Se, ainda por cima, fosse o dono da bola (que é a maioria absoluta dos pequeninos), já se sabe que o jogo acabava quando lhe apetecesse.

                Transformem a bola em educação e descobrirão que o a estratégia chico-espertista se prolonga: segundo Marcelino, a educação pode ser tema de campanha, desde que os professores se abstenham de emitir a sua opinião.

                O alvo das críticas passa, então, a ser uma das caras mais conhecidas da contestação docente, Mário Nogueira. Este, na opinião do editorialista, deveria abster-se de falar de questões laborais e políticas, por acumular as condenáveis condições de professor, sindicalista e comunista. Ficamos à espera que João Marcelino defina o momento do ano em que se possam emitir opiniões e, já agora, qual o grupo restrito de pessoas que o poderá fazer.

                Mário Nogueira tem cometido alguns erros, mas, justiça lhe seja feita, nunca aproveitou a sua condição de sindicalista para defender o voto no partido de que é militante. Por razões que se prendem com os problemas com que os professores foram confrontados, tem defendido o fim de uma maioria absoluta que foi absolutamente prejudicial para a Educação em Portugal, no que, aliás, coincide com muitos professores descontentes, alinhados ou não com sindicatos.

                Parece-me, na minha ingenuidade, que os professores, os sindicalistas, os comunistas os socialistas ou os adeptos dos “Passarinhos da Ribeira” são cidadãos como os outros: desejam todos “condicionar o resultado das eleições”. Para isso, e por enquanto, exprimem opiniões e chegam até a votar.

                E já me esquecia: é claro que os directores de jornais são também cidadãos como os outros.

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3 respostas a Chico-espertismo, um superpoder. Mais um editorial de João Marcelino.

  1. Rui diz:

    Brilhante. Não há pachorra. Parece que esqueceram tudo. Ou não aprenderam. Tão elementar.

  2. Excelente resposta.

  3. Excelente resposta.
    Luís sérgio

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