Manifestação?

A propósito do actual momento da luta dos professores, gostaria de lembrar que um exército só consegue combater com os soldados que existem e não com soldados ideais, do mesmo modo que um treinador só pode usar os jogadores que tem e não os que gostaria de ter. Há aqui uma crítica implícita aos professores que entregaram os objectivos individuais? Em grande parte, sim. Julgo
-me merecedor das mesmas críticas porque concorri a professor titular? Também julgo e fui devidamente castigado porque fui despromovido a essa categoria odiosa, sem sequer ter tido a oportunidade, até hoje, de pisar os colegas que não foram igualmente despromovidos e ainda estou à espera do gabinete e do motorista particular, mais despesas de representação, telemóvel e cartão de crédito (também aceito senhas de refeição).

            O passado não deve ser esquecido e é bom que tenhamos a noção de que somos uma classe demasiado mole e desunida, o que tem permitido que os sucessivos governos tenham tomado medidas cada vez mais prejudiciais, não só para a classe docente, mas, sobretudo, para a Educação.

            Neste momento, os professores podem ser divididos em três grupos:

1.                          Uma minoria que entregou os objectivos individuais porque acredita no modelo de avaliação proposto ou porque defende que o governo manda e o cidadão obedece. Todos estes estão em paz com a sua consciência, independentemente de poderem ser olhados de lado na sala dos professores, o que será incomodativo apenas para aqueles que tenham uma personalidade mais vulnerável. Discordo, mas respeito a coerência.

2.                          A maioria dos que entregaram os objectivos individuais não concorda com o modelo de avaliação, sendo que essa mesma maioria participou no movimento que gerou centenas de reuniões e moções, duas manifestações gigantescas e duas greves históricas. As razões para terem procedido à entrega dos objectivos nasceram numa atitude de intimidação do Ministério. No entanto, essa intimidação só surtiu efeito devido a vários medos, todos bastante compreensíveis, especialmente se tivermos em conta que estamos na presença de um poder que não se tem comportado de forma séria. Para além disso, houve a humaníssima tendência de olhar para o lado, só para confirmar se estavam todos a fazer o mesmo. Posso perceber tudo isto, mas a verdade é que não houve coerência, especialmente tendo em conta que muitos assinaram documentos colectivos em que se comprometiam a não entregar os objectivos individuais.

3.                          Sobram os que não entregaram objectivos individuais, mais conhecidos por “coitadinhos”, designação criada pelo sempre elegante Jorge Pedreira. Se os números avançados pelo Ministério forem verdadeiros, estaremos a falar de 25% da classe, o que, tendo em conta o clima de intimidação criado, tem de ser encarado como um sucesso. (Entretanto, e a propósito de números, é preciso não esquecer que este é o mesmo Ministério que tem inventado estatísticas delirantes de sucesso escolar e de diminuição de faltas dos alunos. Este é o mesmo Ministério, aliás, que debita percentagens de grevistas ainda antes da hora de almoço.) Aos “coitadinhos” só se pode reconhecer coerência.

Como é evidente, a grande divisão ocorre entre estes dois últimos grupos, com estados de alma variáveis que têm contribuído para inquinar o ambiente das escolas. Nos casos mais agudos, os “coitadinhos” passearão a sua superioridade moral pela sala dos professores, enquanto os outros poderão responder com mais agressividade ou mais silêncio. Seja como for, a situação não é saudável.

Entretanto, o governo já deu início à campanha que pretende mostrar que a avaliação foi um sucesso, usando como principal argumento a percentagem de professores que entregaram os objectivos individuais.

Perante isto, que atitude devem tomar os professores? Não permitir que os números falem por si e deixar bem claro que continuam a não concordar com o modelo de avaliação. Os professores devem deixar bem claro que a entrega de objectivos teve origem num grupo de “medrosos e chantagistas”, independentemente das fragilidades que cada um, individualmente, tenha revelado.

Nada disto quer dizer que as divisões no interior da classe desapareceram e nem sequer é benéfico que façamos de conta que desapareceram, porque corre-se, cada vez mais, o risco de que essas divisões venham a ser tristemente decisivas. No entanto, é, ainda, importante que continuemos a tentar descobrir o que nos une e não o que nos separa. Ora, a rejeição de muitas das medidas deste governo continua a unir-nos e é preciso que isso fique claro, para já, numa manifestação com a mesma adesão das anteriores. Se isso acontecer, várias coisas ficarão claras: por um lado, a maioria dos professores não concorda com o sistema de avaliação, com o Estatuto da Carreira e com o novo modelo de gestão; por outro, a mesma maioria que entregou os objectivos estará a declarar publicamente que o fez porque um governo eleito democraticamente se comportou de modo antidemocrático, usando o medo e atropelando a legalidade.

É claro que não há que ter a ilusão de que todos os problemas ficarão resolvidos no dia a seguir à manifestação: o maior deles é o de que há um País que continua por educar. Contribuir para a resolução desse problema passa por explicar a qualquer partido que esteja ou venha a estar no poder que isso não se pode fazer contra os professores. 
         Finalmente, leiam este texto do Rui Correia, porque, para além de ficarem a saber novas de Santo Onofre, ainda podem ficar a pensar numa outra maneira de nos manifestarmos.

  

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2 respostas a Manifestação?

  1. Anónimo diz:

    O texto que escrevi terá várias insuficiências, nomeadamente a de deixar de fora muitas motivações que, com certeza, terão levado muitos a entregar objectivos individuais. Nem defendo que os que entregaram devam andar de cabeça baixa nem que os não entregaram devam achincalhar os outros, o que não nos impede de nos criticarmos uns aos outros. É por isso que defendi uma manifestação em que todos participem.
    Respondendo, mais concretamente, e discordando, quando for caso disso:
    1. Nem todos os que concorreram a titular o fizeram por medo. Muitos tê-lo-ão feito por ambição ou por inércia, por exemplo.
    2. Não concordo que esse tenha sido o primeiro e grande desastre. Foi uma das muitas cedências. O passado dos professores está cheio de cedências. Um exemplo: o roubo do tempo não.lectivo deveria ter merecido uma reacção muito mais forte.
    3. Na minha opinião, o modelo, com mais ou menos dificuldade, funcionará sempre e o Ministério tudo fará para que isso aconteça, desde que consiga manter a divisão da carreira e as quotas de acesso a titular. O problema é mais fundo: este sistema não avalia, efectivamente, o trabalho dos professores. O problema é que um Ministério que propõe um modelo destes está-se borrifando para a qualidade do ensino(o que, aliás, ficou demonstrado no concurso para titulares, em que, como sabes, não entraram necessariamente os melhores, mas os que acumularam pontos por acasos do destino).
    4. Assim, aposto que os professores que entregaram objectivos e pediram aulas assistidas irão ser devidamente avaliados (por este modelo, claro), o que impedirá a anunciada geração do caos.
    5. Afirmar que o modelo gerará o caos é uma crítica implícita. Como participar, então, num modelo que se critica? Para se provar que se quer ser avaliado? Mas deveremos nós aceitar qualquer modelo, mesmo considerando que é mau e que, consequentemente será prejudicial para o próprio Ensino? Porque a verdade é que este modelo não permite, verdadeiramente, mostrar “valor” ou “aptidões”.
    6. Posso depreender que, na tua opinião,não entregar os objectivos individuais será o mesmo que não querer ser avaliado? Isso não é tão simplista como afirmar que todos os que entregaram o fizeram por medo?
    7. O governo tem reclamado vitória graças aos que entregaram os objectivos.
    A Educação em Portugal está mal há muitos anos e piorou substancialmente com este governo. Há muita coisa para contestar, para além da avaliação. Se a maioria pensar assim, vale a pena manifestarmo-nos.

    António Nabais

  2. Paula Vaz Ferraria diz:

    Caro colega, Li o seu texto e entendo e respeito as suas motivações. No entanto, nem todos os professores que apresentaram objectivos individuais e pediram aulas assistidas o fizeram simplesmente por medo. O mesmo “medo”, talvez que levou um enorme numero de professores a concorrer a Titular sem a tal ser obrigado. Este sim o primeiro e grande desastre da situação em que nos encontramos. O que alguns desses professores quiseram mostrar, e nos quais me incluo, sem vergonha e sem andar de cabeça baixa, foi provar que o modelo não funciona pondo-o à prova, gerando o caus, e também que não têm medo de ser avaliados, de mostrar o seu valor e as suas aptidões, abrindo-se assim a serem corrigidos e a melhorarem o trabalho que prestam aos seus clientes; os alunos. Mais uma vitória do governo, “os professores não querem é ser avaliados!!!!!”.

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