Deputados em púbico

Fernando Madrinha e Daniel Oliveira, na mesma edição do Expresso, chamam a atenção para a falta de cultura literária e linguística que grassa pelas nossas classes dirigentes, com realce acertado para o episódio em que interveio o deputado social-democrata José Eduardo Martins, cuja indignação se manifestou pobremente pelo envio do socialista Afonso Candal para o território púbico, para além de ameaças em tom taberneiro. Leia-se o texto de Daniel Oliveira.

           

 

 

A arte do insulto

 

O que seria de Feliciano Castilho sem Antero de Quental? Quem seria Júlio Dantas sem Almada Negreiros? Mesmo recentemente, o veneno nunca faltou aos mais ilustres portugueses. Foi sobre Manuel Alegre que Agustina disse ser “o melhor dos poetas assim-assim”. E foi a pensar num outro escritor que Luiz Pacheco criou uma nova classificação: “abaixo de Namora”. Claro que nunca chegámos à sofisticação de um Winston Churchill. Quando Bernard Shaw enviou um telegrama jocoso a Churchill – “Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver.” – este respondeu: “Agradeço ao ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver.” Disse-lhe Lady Astor, durante uma visita ao Palácio de Blenheim: “Winston, se você fosse meu marido, eu poria veneno no seu café.” Ao que ele respondeu, sem nenhum cavalheirismo: “Nancy, se eu fosse seu marido, bebia-o”.

Bem sei que o genital vocábulo do deputado José Eduardo Martins veio como resposta a uma tosca ironia dessa figura incontornável da política nacional que dá pelo nome de Afonso Candal, uma prova viva do poder da genética. Mas esperava-se mais. De facto, e será talvez esse um dos sinais da crise do nosso sistema educativo, já não se insulta como antigamente. Falta requinte no verbo e subtileza no adjectivo. Não há conteúdo na baixeza, é pobre a forma do aparte. Por isso, do que me tem sido dado conhecer destes tribunos, restam-me de novo as sábias palavras do mais mortífero dos insultadores que a política já conheceu: têm todas as virtudes que odeio e nenhum dos vícios que admiro. 

                      

 

 

 

            Noutro contexto, com outros protagonistas, a resposta de Churchill a Lady Astor seria qualquer coisa como “Punhas-me veneno no café, minha vaca? Se eu fosse teu marido, perdias era os dentes todos e ainda te enfiava o café com a chávena pelo cu acima.”

 

            Leia-se, agora, o texto de Fernando Madrinha:

 

Sujeitos e predicados

 

Uma coisa é o presidente da República dizer que as leis são mal feitas, mas sem descer a pormenores para não envergonhar os legisladores. Outra coisa é vermos e ouvirmos o procurador-geral da República a pedir aos senhores deputados que façam lá o favor de tirar a vírgula entre o sujeito e o predicado. Ou a interrogar-se sobre o que quererá dizer “empoderamento” (do termo inglês empowerment, ao que parece), ou porque aparecem numa proposta de lei siglas incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Com exemplos tão concretos e esclarecedores como estes, ficamos a perceber melhor de que fala o presidente. E qual o nível de iliteracia a que se chegou nos mais altos poderes do Estado.

Três décadas de ensino unificado pontuadas por múltiplas reformas, qual delas a mais moderna e vanguardista, foi no que deram. Não temos, pois, de nos surpreender com o facto de ninguém no Ministério da Educação ter detectado os erros de português instalados no célebre Magalhães. Se os membros do Governo responsáveis pela elaboração de decretos e propostas de leis, bem como os seus assessores, juristas, consultores e altos quadros, escrevem como escrevem — ou, pelo menos, não se envergonham de assinar os textos que assinam —, porque hão-de os funcionários do Ministério da Educação incumbidos de acompanhar o Magalhães perceber a diferença entre ‘vês’ e ‘vez’, entre ‘acabas-te’ e ‘acabaste’?

Já quanto aos deputados, temos de ser ainda mais compreensivos. Desde logo porque há lá uns sujeitos sem outros predicados que não o de terem sabido manobrar para conseguirem um lugar na lista de candidatos. E, entre eles, também aparece quem esteja fortemente empenhado em reproduzir na Assembleia o ambiente de certas escolas onde, a par da ignorância, há quem cultive com gosto e garbo a linguagem de caserna. Foi o que fez aquele parlamentar do PSD, José Eduardo Martins, numa das últimas sessões, sem que se tenha ouvido um protesto — nem do presidente da Assembleia, nem de qualquer dos seus pares, nem do líder da sua bancada, que considerou suficiente um vago e parcelar pedido de desculpas. É, pois, muito improvável que o deputado em causa seja varrido da próxima lista de candidatos do PSD, como seria lógico e salutar depois do triste exemplo que deu ao país.

           

 

            É também aqui inestimável a crueldade do Procurador-Geral da República a dar lições de Português aos Deputados da Nação, que, pelo que se sabe, preferiram não mostrar indignação por terem visto arrastada pelo lodo a sua evidente incompetência linguística.

            O que é curioso notar em ambos os textos é a associação que os autores fazem entre essa mesma incompetência e o falhanço do sistema educativo. Fernando Madrinha, aliás, deixa uma palavra justíssima para o inevitável prejuízo provocado pelas sucessivas reformas. Pergunta-se se será este o mesmo Fernando Madrinha que tantas vezes tem elogiado o ímpeto reformista da Ministra da Educação.

            A verdade é que a competência linguística dos cidadãos portugueses tem vindo a diminuir progressivamente e o sucesso estatístico tem funcionado como o tapete para baixo do qual se varre esse lixo. Algumas vozes de bom-senso têm chamado sucessivamente a atenção para tal facto, mas para aqueles que nos governam interessa apenas a classificação e nunca a avaliação.  

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