Eça agora

             Sou um adversário tenaz do automatismo que leva muita gente a descortinar actualidade em autores de épocas passadas, porque o que me interessa é, exactamente, a época em que os autores escreveram. Relativamente à minha época, já me chega ter de viver nela: procuro usufruir das vantagens e não preciso que venha um sumério lembrar-me das desvantagens.

            O problema, no entanto, está naquela espécie de conjugação astral que leva a realidade actual a parecer-se com o passado presente nas palavras de escritores de outras eras. Um dos casos mais impressionantes é o Eça, cuja actualidade, confesso, não consigo combater. É claro que a culpa não é dele. À maneira de prefácio de um outro texto que irei blogar, fica aqui o final de uma das crónicas de Uma Campanha Alegre:

“Ora tudo isto nos faz pensar – que quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país!

E portanto, logicamente, o chefe do Estado tem de proceder da maneira seguinte na apreciação dos homens:

O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de francês. O poder moderador deita-lhe logo um olho terno.

O menino Eleutério, continuando a sua bela carreira política, fica reprovado no seu exame de história. O poder moderador, alvoroçado, acena-lhe com um lenço branco.

O caloiro Eleutério, dando outro passo largo, fica reprovado no 1 ano da

Faculdade de Direito. O poder moderador exulta, e quer a todo o transe ter com ele umas falas sérias.

O bacharel Eleutério, avançando sempre, fica reprovado no concurso de delegado. O poder moderador não pode conter o júbilo, e fá-lo ministro da Justiça.

E a opinião aplaude!

De modo que, se um homem se pudesse apresentar ao chefe do Estado com os seguintes documentos:

Espírito de tal modo bronco que nunca pôde aprender a somar;

Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos.

O chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e bradaria, sufocado em júbilo:

Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo o sempre, Presidente do Conselho!”

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