Um editorial de uma espécie de "Acção Socialista"

  “O que interessa dizer sobre o ‘Magalhães'”

As polémicas em redor do computador Magalhães são exactamente isso, polémicas. A maioria delas evitáveis e desnecessárias, mas que não retiram mérito ao essencial daquela que deve ser considerada uma das boas medidas deste governo e pela qual, não se duvide, muitos portugueses lhe ficarão gratos nas urnas. Permitir que milhares de crianças portuguesas se iniciem nas novas tecnologias e possam não só usar como ter um computador e acesso à Internet (muitos deles, os de famílias de menores recursos, gratuitamente), é pois o que deve ser sublinhado e não certos casos acessórios.

É claro que deveria ter havido maior cuidado e controlo de qualidade nos programas disponíveis neste computador educacional e que não ter detectado atempadamente as centenas de erros de português num jogo didáctico nele disponível é uma falha grave que podia, e deveria, ter sido evitada. Mas tal como as acções de promoção ao Magalhães por parte do Governo se tornaram demasiado propagandísticas (e são as grandes culpadas de o computador se ter tornado no maior foco do anedotário nacional), também os seus detractores caíram repetidamente no exagero e no ridículo.

Em resumo: o Governo é culpado por não ter sido mais exigente em relação à qualidade do produto (tal como por não ter verificado a situação fiscal dos seus produtores), mas neste caso concreto pediu desculpas, assumiu o erro e já apresentou soluções para o resolver. O resto são pormenores. E tentar tirar proveito político deles revela muito de quem o faz.

DN, 08-03-09

        Os editoriais desta folha oficiosa do governo são monumentos de argumentação e pérolas da língua portuguesa (não me admiraria que o autor destas flores ainda chegasse a Director Regional de qualquer coisa…).

      O primeiro período é lapidar: ficamos a saber que há polémicas que são só polémicas. Podemos, portanto, pressentir que há outras que não o são. Fico a aguardar pelo exemplo de uma polémica que seja outra coisa.

      O período seguinte é um período que não deveria ser um período, pois tudo ali pede uma vírgula, mas se há polémicas que nem sempre são polémicas por que não há-de haver períodos que não o sejam (períodos, claro)?

      O editorialista afirma que esta é “uma das boas medidas deste governo”. Vou fingir que deixo passar em claro o facto de que ainda não se tinha falado em medida nenhuma, o que pode ser encarado como um convite ao exercício da sagacidade do leitor. É evidente que há muito de positivo nas campanhas que permitam o acesso de muitos a tecnologias avançadas e é justo que os beneficiários dessa campanha fiquem gratos ao governo nas urnas ou mesmo em casa. É também evidente que devemos concentrar-nos no essencial das medidas e não em “certos casos acessórios”.

      Seguidamente, o nosso autor ainda reconhece que “não ter detectado atempadamente as centenas de erros de português” presentes num programa de um “computador educacional” (não vou comentar, juro que não vou) é uma “falha grave”. Pergunto-me, para já, se uma “falha grave” pode entrar na categoria de “certos casos acessórios”.

      Entretanto, é importante lembrar que o governo tem dado ao Magalhães uma importância desmesurada, tendo sido possível assistir ao momento glorioso de ver o primeiro-ministro a fazer publicidade ao pequeno computador em plena cimeira ibero-americana, para já não falar da entrega do mesmo a crianças apenas para jornalista fotografar.

      Mesmo sem erros ortográficos, toda esta campanha tem aspectos que são, no mínimo, ridículos. Pior do que isso é a propagação insidiosa da ideia de que basta distribuir tecnologia para que um povo fique educado. Será curioso concluir que a geração Magalhães continuará a manter níveis de iliteracia alarmantes, porque as verdadeiras reformas continuarão por fazer. Basta ver que o governo que distribui computadores é o mesmo que se prepara, entre outras coisas, para fomentar os professores generalistas no actual segundo ciclo, o que, a par de um desenho curricular deficiente, provocará uma baixa de qualidade na aprendizagem de alunos.

      Voltando à vaca fria, ou seja, ao editorial, o alegado jornalista que o escreveu ataca as críticas feitas à “falha grave”, clamando que o problema estaria resolvido porque o governo distribuiu generosamente computadores e porque pediu desculpas.

      A frase com que conclui o reparo é sibilina. Inspirando-me nela, poderei afirmar que “tentar tirar proveito político” da distribuição de computadores “revela muito de quem o faz.”. Poderei, ainda, acrescentar que editoriais destes revelam muito de quem os escreve.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s