O vácuo e a solidão

            
           ”Governo lamenta ter ficado sozinho a lutar pela avaliação dos professores”

         

             Ora aqui está uma bela imagem do que é a solidão do poder: o governo, mesmo sendo um grupo de pessoas, sente-se sozinho. E lamenta. Já o imagino, inconsolável e choroso, a desabafar no ombro amigo de um qualquer banco nacionalizado: “Vê lá tu, pá, que, sendo eu tão porreiro, pá, fiquei sozinho apenas por ter defendido um melhor sistema de ensino público do país.”

            Vários são os comentários que me ocorrem:

 

            1 – Mas quem é que atacou o governo “por ter defendido que quer um melhor sistema de ensino público para o país”? Já assisti a algumas cenas de indignação televisiva a propósito de ensino e nunca ouvi nenhum entrevistado afirmar que “Isto é uma vergonha! Esse senhor vem agora para aqui defender um melhor sistema de ensino público para o país! Deviam era ir todos para a rua! Malandros!”

           

            2 – No segundo parágrafo, reaparece um dos meus tiques favoritos nas figuras públicas: consiste em afirmar que conhece perfeitamente a vontade e o pensamento de todos ou, nos casos de modéstia, da larga maioria (em vez de “larga”, pode aparecer “esmagadora” ou o estranho caso da “quase totalidade”). Assim, “todos reconheceram”.

            Mas “todos reconheceram” o quê? Que “sem a avaliação dos professores, isso contribuiria para o declínio do sistema do ensino público”. E “todos reconheceram isso” quando? “Nestes últimos três anos…” Já se sabe que, antes de Sócrates, nunca houve avaliação dos professores, tal como não havia fogo, roda e pólvora.

            É claro que já houve quem dissesse (duas ou três pessoas, não mais) que o problema estava no modelo de avaliação proposto, mas, no dizer de tantos iluminados, isso é o mesmo que não querer, lá no fundo, ser avaliado.

            Mais uma vez, Sócrates lamenta a solidão em que os outros partidos, esses maus, o deixaram, obrigando o governo a ficar sozinho com a sua maioria absoluta.

 

            3 – “A avaliação dos professores é indispensável para a melhoria do sistema educativo em Portugal nos próximos anos” disse, ainda, José Sócrates. É uma verdade tão geral que não há como discordar. O problema estará sempre, na opinião dos mesmos dois ou três, no caminho escolhido, ou seja, no método, isto é, no modelo. Os opinantes de serviço lá dirão qualquer coisa do género “esses calaceiros dos professores não querem é ser avaliados, contribuindo, propositadamente, para o declínio do sistema educativo”.

            O que é estranho é que a Senhora Ministra da Educação já espalhou estatísticas que indicam uma diminuição esmagadora do abandono escolar e um aumento espectacular da taxa de aprovação. Se isto é assim sem avaliação dos professores, imagine-se o que vai ser quando forem avaliados.

 

            4 – “A avaliação é essencial para que o interesse do país seja prosseguido, por isso insisto na avaliação dos professores”. O desenvolvimento do raciocínio do Primeiro-Ministro é inatacável: se a avaliação é boa para o sistema de ensino e se o país precisa de um sistema de ensino melhor, a avaliação dos professores é necessária ao país. Será que alguém vem dizer o contrário?

            A expressão “interesse do país” é parente do tique acima referido, só possível na boca dos iluminados que, de tanta luz, acabam por sentir a incompreensão dos mais limitados, acabando chorosamente sós.

 

            5 –  “O Governo não vai deixar de insistir nas reformas que considera essenciais para aumentar a riqueza do país”. Eu, se fosse o governo, também não deixava de insistir, mesmo que a oposição, os professores e outras pessoas defendam de um modo tão evidente o empobrecimento do país.

 

            O nosso Primeiro-Ministro, por muito Armani que vista, é um bom português, especialista em aplicar frases tão vagas que não é possível discordar. Se falasse de alimentação, faria afirmações como “O que é preciso é ter uma alimentação equilibrada.” Se falasse do tempo, poderia olhar para o céu e dizer “Um dia destes, é capaz de chover.”  

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a O vácuo e a solidão

  1. Anónimo diz:

    Mas, afinal, por que carga de água escolheste ‘os dias do pisco’? Já sei, já sei, deve ter a ver com latim latino … E já sei, já sei, tu és o máximo …
    big kiss

  2. Peixoto diz:

    Mais do que frases vagas, são frases falsas e mentirosas!!!
    Sócrates mente com o máximo de descaramento possível!!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s