Não me leves a mal, mas és homossexual!

 
       

      Visita guiada ao cancioneiro de Afonso Sanches

        Para ver os textos existentes sobre este assunto: Afonso Sanches

Afons’Afonses batiçar queredes

Vosso criado e cura non havedes

Que chamem clérigu’; em esto fazedes,

A quant’eu cuido, mui mao recado,

Ca sem clerigo como haveredes

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Afons’Afonses nunca batiçado

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       Do texto sobram-nos parte de uma estrofe e, provavelmente, o primeiro verso da seguinte. Estamos, portanto, na presença de um monumento em ruínas. À semelhança dos arqueólogos, isso não nos impedirá de tentar retirar informações dos escombros.
       O poeta dirige-se a um Afonso Afonses, dizendo que este quer baptizar um seu criado (“batiçar queredes/Vosso criado”) sem chamar um clérigo. Podemos, desde já, tirar uma primeira conclusão: em princípio, o criado em causa não seria cristão. Assim, dentro do espírito evangelizador que deveria presidir à actuação de qualquer católico, é perfeitamente legítimo que, à luz da mentalidade da época, um senhor procurasse que os seus servidores seguissem o caminho recto da religião.
       A estranheza está no facto de querer baptizar alguém sem a intervenção de um homem da Igreja. O narrador critica, então, abertamente Afonso Afonses (“em esto fazedes,/A quant’eu cuido, mui mao recado,”). Como é óbvio, apenas um membro do clero poderia ministrar o sacramento do baptismo. Podemos, ainda, afirmar, com grande dose de certeza, que Afonso Afonses, como cristão, não ignorava esse dado.
       Neste momento, somos, então, levados a desconfiar que o termo baptizar poderá ter outro significado. Vários estudiosos têm dado a este termo, neste texto, um sentido obsceno. Conservando a noção de que este acto se refere a um início, tem sido interpretado como significando tirar a virgindade. Como é evidente, a acusação pouco subtil que passa a pesar sobre o visado é a de homossexualidade, pecado, na óptica da Igreja (como ainda hoje), mas sobretudo estigma, num mundo em que os sinais de masculinidade eram fundamentais para a vida social do homem.
       Como é evidente, não é possível, com base neste texto, garantir que Afonso Afonses seria (ou não) homossexual, nem isso é importante. Não é difícil imaginar que esta cantiga tenha sido como que representada diante da vítima e de um grupo que a conhecia. Não será este quadro semelhante a muitas situações actuais que podem oscilar entre a amigável maledicência ou a ofensa descarada, tendo por tema a falta de virilidade de um elemento no meio de um grupo? Aceitando que a sátira institui um mundo carnavalesco, até pode ser que o Afonses não tenha levado a mal o Sanches. Enfim, coisas de Afonsos.

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